Brasília - O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) disse ontem, em discurso que parou o plenário do Senado, que o Parlamento virou um ''mero atravessador de verbas públicas'' e que o quadro político está ''degenerado'' porque o que se busca hoje são apenas cargos.
Ele citou a recente tentativa de mudança no comando do fundo de pensão Real Grandeza, de Furnas, como exemplo de interesses escusos, e disse que não precisaria apontar nomes de corruptos porque ''eles vem à tona, quase que diariamente''. Jarbas cobrou do governo uma auditoria no fundo.
Embora tenha citado a disputa pelo comando de Furnas, de interesse do PMDB, Jarbas não atacou diretamente o partido como fez em entrevista recente à revista ''Veja''. À publicação, ele disse que ''boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção''. Suas críticas, desta vez, foram generalizadas para todos os políticos e o governo do presidente Lula.
A substituição no fundo foi abortada pelo Palácio do Planalto depois de protestos de servidores de Furnas. ''As pessoas se agarram aos cargos como mariscos no casco de um navio, não caem nem nas maiores tempestades'', disse.
Sobre o presidente do Senado, José Sarney, que não ficou no plenário para acompanhar o discurso, Jarbas afirmou que não acrescentaria críticas. ''O que tinha de dizer sobre o presidente da Casa e o líder do partido já disse, seria mesquinho e pequeno se acrescentasse mais detalhes.'' Senadores de oposição e do governo respaldaram o discurso e defenderam mudanças no sistema político.
No discurso, Jarbas defendeu aidan o resgate da ética na política brasileira como uma espécie de ''tábua de salvação'' para o Congresso. ''Ou resgatamos essa lógica para o exercício da política ou vamos continuar estampando capas de jornais da pior forma possível. Não me agradou dizer o que eu disse'', afirmou.
O parlamentar agradeceu o apoio recebido da população brasileira depois das críticas ao PMDB. ''Agradeço as milhares de correspondências que recebi. O exercício da política não pode ser transformado num balcão de negócios. O que se vê hoje no país é um sentimento de descrença. O poder pelo poder leva a um quadro degenerado que vemos hoje no país.''
Jarbas disse que vai apresentar projeto de lei que impede os partidos políticos de indicarem nomes para o cargo de diretor financeiro de estatais. O peemedebista afirmou que sua proposta inclui ainda a necessidade de que o cargo seja ocupado por funcionários de carreira que serão submetidos antes de assumirem as funções à sabatina no Senado.
Comissões
Mais cedo, Jarbas Vasconcelos decidiu pedir o seu afastamento de todas as comissões permanentes do Senado depois que o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) anunciou que destituiria o parlamentar da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).
''Foi com surpresa que, no dia de hoje (ontem), o atual líder me afastou mais uma vez (da CCJ) sem sequer me comunicar. Não aceito qualquer outra indicação desta liderança do PMDB para colegiados nesta Casa. Nem mesmo na ditadura tive meus direitos políticos cerceados. Agora, em pleno regime democrático, sou impedido de exercer meu mandato em sua plenitude'', disse Jarbas.
O senador abriu mão de ser titular das Comissões de Relações Exteriores, Educação e Direitos Humanos. Jarbas também pediu para deixar a vaga de suplente da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado. Como as indicações para as comissões são realizadas pelo líder do partido, Jarbas decidiu abrir mão dos cargos numa represália à ação de Renan.

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