Parlamentares protocolam CPI das obras públicas
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quarta-feira, 13 de junho de 2007
João Domingos e Luciana Nunes Leal<br>Agência Estado 
João Domingos e Luciana Nunes Leal
Agência Estado
Brasília - Deputados e senadores favoráveis à instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a apurar fraude em licitações e corrupção em obras públicas executadas pela empreiteira Gautama - já apelidada de CPI da Navalha - protocolaram ontem na Mesa do Congresso as assinaturas de 172 deputados e de 30 senadores favoráveis à investigação. Mas estão todos desesperançosos quanto ao sucesso da CPI.
Ela é natimorta. Vai morrer daqui a três horas. Mas vamos protocolar o pedido em respeito àqueles que o assinaram, afirmou o deputado Júlio Delgado (MG), da ala independente do PSB. Se dois deputados apenas retirarem a assinatura, o pedido será arquivado, porque na Câmara são necessárias 171 para que uma CPI vingue; no Senado, o número é de 27. Delgado afirmou que tem a informação de que mais parlamentares deverão recuar, retirando o apoio. Ninguém foi constrangido a assinar o pedido, disse, a título de consolação, o líder do PSOL, Chico Alencar (RJ).
A partir de agora, as assinaturas serão conferidas. Se houver problemas com duas delas, a CPI já vai para o arquivo. Se estiverem todas corretas, serão encaminhadas à Mesa do Congresso. Caberá, então, ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), convocar uma sessão do Congresso - não há nenhuma marcada. Nessa sessão, que ninguém sabe dizer ainda quando ocorrerá, será lido o requerimento de criação da CPI. No dia seguinte, o ato será publicado. As assinaturas podem ser retiradas até meia-noite do dia anterior àquele em que houver a publicação.
Os problemas para a instalação da CPI da Navalha são muitos. Não só por causa do pequeno número de assinaturas na Câmara, mas de outra ordem. Ontem mesmo, os deputados Julio Delgado, Chico Alencar e Augusto Carvalho (PPS-DF) esperaram por quase duas horas para fazer o protocolo do pedido. Dirigiram-se, primeiro, à sala onde funciona a Mesa do Congresso.
Mas o senador José Nery
(PSOL-PA), que estavam com as assinaturas dos colegas do Senado, encontrava-se na sessão do Conselho de Ética e não podia sair. Depois de muito esperar, os deputados conseguiram convencer um funcionário da Mesa a acompanhá-los até a porta da CPI, uns duzentos passos adiante, onde se encontrariam com o senador.
Foram até lá. Mas não deu certo. Envolvido no debate do Conselho de Ética sobre o arquivamento ou não do processo contra o presidente do Senado, Renan Calheiros, Nery não quis arredar pé da sala. Meia hora depois foi encerrada a sessão do Conselho de Ética. Todo mundo saiu de uma vez só. Os deputados da CPI quase foram atropelados pelos operadores das câmeras de TV, que corriam atrás do relator do conselho, senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA). Passada a correria, voltaram à Mesa do Congresso e, enfim, entregaram as assinaturas.
Um pouco antes, o deputado Júlio Delgado envolveu-se num bate-boca e empurra-empurra com Francisco Tenório (PMN-AL). Delgado procurara Tenório dentro do plenário da Câmara para lhe cobrar algumas assinaturas, visto que este as havia prometido. Tenório respondeu que não tinha conseguido nenhuma e que também não assinaria nada. Delgado respondeu que costumava cumprir a palavra. Tenório respondeu que também agia assim.
Delgado o chamou de moleque e Tenório reagiu no mesmo tom. Vendo que dali sairia confusão, Delgado virou as costas, mas recebeu um safanão do parlamentar alagoano. Os seguranças abafaram a confusão e cada um saiu por um lado.
A oposição tentou de todo jeito aumentar o número de assinaturas para a instalação da CPI. Mas, sem 15 votos do DEM da Bahia e de Sergipe, teve de se contentar com a temerária lista de 172 assinaturas. A decisão do DEM baiano foi tomada porque há suspeita de envolvimento do deputado Paulo Magalhães (DEM-BA) com a máfia investigada pela Operação Navalha da Polícia Federal. Enquanto isso, o líder do governo na Câmara, José Múcio Monteiro (PTB-PE), fez corpo-a-corpo no plenário para evitar novas adesões à proposta.


