Curitiba – Nas decisões em que acata os pedidos de prisões preventivas dos ex-deputados André Vargas, Luiz Argôlo e Pedro Correia, o juiz federal Sérgio Moro destacou, em trecho de seu despacho que "a gravidade concreta da conduta dos parlamentares é ainda mais especial, pois as provas apontam que eles traíram seus mandatos e a confiança que a sociedade brasileira neles depositaram, ao concordarem em utilizá-los para enriquecerem ilicitamente". O magistrado completa, reforçando que "a manutenção deles em liberdade ainda oferece um risco especial pois mantém significativo poder político".
O ex-deputado federal Luiz Argôlo chegou na noite de ontem em Curitiba e foi encaminhado à carceragem da Polícia Federal (PF). Conforme o juiz, "João Luiz Correia Argolo dos Santos seria um dos beneficiários do esquema de propinas instaurado no Petrobras, para ele sendo destinado, a partir de 2011, valores de cota cabível aos partidos políticos, primeiro enquanto se encontrava no Partido Progressista (PP) e depois no Solidariedade".
Em sua delação premiada, Alberto Youssef afirmou que fez repasses a Argôlo desde quando o conheceu, em 2011, e que estes valores variavam entre R$ 20 mil e R$ 200 mil. Argôlo, segundo o Youssef, teria recebido emprestado um helicóptero do doleiro para sua campanha eleitoral de 2014. Ainda conforme depoimento do londrinense, o ex-parlamentar comprou a aeronave em 2012, mas não teve dinheiro para quitar as prestações. O político teria pedido dinheiro emprestado ao doleiro para fazer os pagamentos. Argôlo deixou o PP no fim de 2013 e transferiu-se para o Solidariedade. Interceptações telefônicas da PF apontam que o ex-deputado teria recebido propina de R$ 400 mil da OAS por meio de Youssef.
Conforme o MPF, além da delação de Youssef e depoimentos de Leonardo Meirelles, provas documentais apontam que o ex-deputado e Youssef seriam os proprietários de fato da empresa Malga Engenharia Ltda., e que eles a teriam adquirido, em 2013, de Leonardo Meirelles, "mas mantido no quadro social a pessoa interposta que ali já figurava". Meirelles é proprietário da Labogen, empresa já citada nos processos da Lava Jato.
Um dos 40 réus no processo do mensalão, Pedro Corrêa foi condenado em 2013 a sete anos e dois meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro e cumpre pena em regime semiaberto. Com a nova fase da Lava Jato, ele teve o pedido de transferência para Curitiba aceito pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e deve chegar na PF ainda hoje.
Ele é acusado pela Polícia Federal (PF) de "dar sustentação à nomeação e à permanência nos cargos da Petrobras" de diretores e gerentes ligados ao esquema de corrupção. De acordo com despacho de Moro, mesmo depois de cassado no processo do mensalão, o ex-parlamentar "não perdeu seu poder político, tendo inclusive logrado eleger sua filha Aline Correa para a Câmara dos Deputados". Na delação premiada, Youssef reporta-se por diversas vezes a Correa como um dos membros do PP que apoiava Paulo Roberto Costa, recebendo propina.
"Os pagamentos seriam feitos periodicamente em contas do próprio Pedro Corrêa, de pessoas interpostas ou em espécie por Alberto Youssef", diz trecho do despacho de Moro. O juiz ainda esclarece que e-mails interceptados de conversas entre Youssef e Corrêa mostram supostas transações bancárias que somam ao menos R$ 100 mil. Registros de entrada dos escritórios do doleiro apontaram 23 acessos de Corrêa entre outubro de 2011 e agosto de 2013. "A explicação provável é a de que essas constantes visitas serviam para recebimento de pagamentos em espécie, daí a dificuldade provar documentalmente todas as operações", completou o juiz.
Moro determinou o bloqueio de até R$ 120 milhões de seis pessoas presas na manhã de ontem. A medida afeta Corrêa e Argôlo, a nora de Corrêa, Marcia Corrêa, a secretária de Argôlo, Elia Santos da Hora, e Ivan Vernon. Para cada um, o magistrado pediu o bloqueio de até R$ 20 milhões.
A Caixa e o Ministério da Saúde afirmaram que deram início a uma apuração interna logo após terem sido citados pela Operação da PF na manhã de ontem. "A Caixa reitera que vai colaborar integralmente com as investigações e informa que encaminhará imediatamente todos os contratos relacionados às empresas citadas à Controladoria-Geral da União, à Polícia Federal e ao Ministério Público", afirmou, em nota, o banco estatal. "O Ministério da Saúde está à disposição da Polícia Federal e demais órgãos de controle para quaisquer esclarecimentos sobre os processos da Labogen e da empresa de publicidade", escreveu o ministério em nota. (Com Agência Estado)

mockup