Parente descarta mudança no modelo econômico
Parente descarta mudança no modelo econômico
Valdo Cruz e
Vivaldo de Sousa
Agência Folha
Arquivo FolhaO ministro Pedro Parente: governo não vai colocar em risco a estabilidadeO ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, disse que o governo vai tomar medidas construtivas para recuperar a popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso e evitar que a oposição tenha sucesso nas manifestações que programa para os próximos meses. Ele descarta, porém, uma guinada no modelo econômico, como defendem alguns aliados de FHC. A única mudança que poderia acontecer aconteceu: foi a mudança na política cambial. Segundo ele, o governo não vai adotar nenhuma medida que coloque em risco a estabilidade.
A seguir, os principais trechos de entrevista concedida na sexta-feira:
Agência FolhaAliados do governo entenderam a Marcha dos 100 Mil como um alerta para a necessidade de correção de rumos na política econômica. O governo tem essa avaliação?
ParenteDevemos separar duas questões. Uma é atribuir à marcha de quinta-feira, por si só, uma significância que a transcende, no sentido de que ela já vinha de antes. O governo está, sim, prestando muita atenção a todos os sinais que vínhamos tendo e que se manifestaram na queda de popularidade do presidente, mostrando o grau de insatisfação da sociedade.
AFE sobre a necessidade de mudança de rumos?
ParenteQue havia e há necessidade de avançar mais em uma série de providências que o governo pode adotar, inclusive porque passos prévios já foram adotados, sem dúvida há. O governo já trabalha nisso. O que não se pode em nenhuma hipótese questionar é se isso será feito à custa da estabilidade e do controle fiscal, porque esse seria o maior engano. Nós estamos muito próximos de chegar e dizer: olha, do ponto de vista fiscal, nós conseguimos o conjunto de medidas para estabilizar nossa situação fiscal. A partir daí, vamos ter certamente as condições de baixar a taxa de juros muito mais rapidamente, crescer sem inflação, sem medo de problemas nas nossas contas externas. Isso não quer dizer que não possamos fazer mais do que estamos fazendo, preservando a estabilidade. Essa é a visão do governo.
AFO governo não estaria um pouco sonolento? No começo do ano, por exemplo, estava mais voltado para a questão fiscal.
ParenteAcho que não. Acho que o governo, no primeiro semestre, teve de lidar com questões que não eram gastos de energia no sentido da construção, e sim gasto de energia na sua defesa. A defesa para explicar a mudança da política cambial e minorar seus efeitos. A defesa no sentido de lidar com problemas na área política derivados da instalação de duas CPIs e a defesa no sentido de fazer as medidas necessárias, caso do reajuste das tarifas, sem as quais poderia ser comprometido o resultado fiscal. Uma vez constatado que a situação será muito melhor do que a prevista e que já foram superadas as medidas defensivas como, por exemplo, o reajuste de tarifas, agora será possível canalizar essa energia perdida em medidas mais construtivas. Mas sem colocar em risco o programa de estabilidade econômica.
AFQue tipo de medidas?
ParenteA questão das taxas de juros: uma coisa é trabalhar com os juros básicos, cuja redução mais acelerada depende da aprovação de medidas que estão andando. Outra são os juros para o consumidor. Há uma enorme diferença entre essa taxa básica e aquela paga pelos consumidores, pelos produtores. Essa diferença não existe em nenhum lugar do mundo. O governo chama a atenção sobre essa questão e já trabalha nesse assunto.
AFO que mais está sendo preparado de concreto?
ParenteNão podemos falar que haverá um dia D em que o governo vai anunciar medidas. Há várias áreas trabalhando e, quando as medidas estiverem prontas, nós vamos ter condições de anunciá-las.
AFAlguns aliados do governo, como o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros e o governador Tasso Jereissati (CE), bem próximos do presidente, chegam a falar que é necessário uma mudança de modelo econômico. Como o sr. vê isso?
ParenteAcho que a divergência, a discussão, são fundamentais para que se possa encontrar sempre as melhores soluções. Ter uma discussão monotemática e todo mundo a favor de uma única forma de trabalhar não é o melhor caminho. É bom que haja divergência e acho que nós não devemos fugir às discussões. Nós devemos submeter os assuntos à discussão e ver se temos condições de demonstrar que a nossa posição, tem consistência. Com relação ao tema que está colocado, a única mudança de política econômica que poderia acontecer, aconteceu: foi a mudança no câmbio.





