Curitiba - Suspeitas, perseguição, listas de cassações, censura. Mesmo longe do centro da política nacional, o Paraná já sentia a iminência do golpe de Estado. Poucas semanas antes do golpe militar, o então governador Ney Braga formado pela Escola Militar do Rio de Janeiro mandou ao Rio aliados de sua confiança para ''sondar'' o clima político. Foram ao Rio o secretário de Viação, coronel Alípio Ayres de Carvalho, e o major Jackson Pitombo Cavalcanti.
Na volta, eles relataram que a posição do presidente João Goulart, o Jango, seria sólida. Mas pouco depois Jango foi deposto. O marechal Castelo Branco foi eleito presidente pelo Congresso Nacional.
No dia 1º de abril, Ney Braga (que era considerado homem de confiança do novo regime) declarou que o Brasil estava livre, e que a democracia cristã passaria a vingar. A Assembléia Legislativa do Paraná sentiu que precisaria se adaptar à nova ordem para evitar ou pelo menos minimizar as perseguições políticas. Basicamente, concedeu homenagens a militares. Mas nem por isso deputados estaduais deixaram de ser cassados. Sinval Martins, Jorge Nassar, Almir Passo, Waldemar Daros, Aníbal Khury, entre outros, perderam os mandatos.
Veio o Ato Institucional (AI) número 1, que cassou os mandatos de 40 deputados federais, Amaury Silva (ministro do Trabalho do governo Jango), entre outros políticos em todo País acusados de ter idéias totalitárias ou socializantes. Políticos do Paraná perceberam que estavam na mira.
As cassações continuavam, e em meio ao clima de perseguição política a Assembléia elegeu nova mesa executiva: Antônio Ferreira Ruppel como presidente, José Vaz de Carvalho e Joaquim Néia de Oliveira vice-presidentes, e Aníbal Khury primeiro-secretário. Jorge Nassar, Almir Passo e Olívio Belich ocuparam as demais secretarias. Temendo restrições e novas cassações, um grupo de 24 deputados estaduais apresentou, no dia 23 de abril, um projeto concedendo o título de Cidadão Paranaense ao comandante da 5 Região Militar, general Dario Coelho.
Em junho, depois de uma onda de cassações, foi apresentado projeto concedendo a mesma homenagem ao marechal Castelo Branco. O marechal recebeu o título em setembro de 1964. Poucos dias antes, havia sido montada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a prisão arbitrária acompanhada de tortura do ex-deputado Walter Pecoits, de Francisco Beltrão, que teve o mandato cassado pela ditadura. Uma pancada com a coronha de um rifle teria deixado Pecoits cego do olho esquerdo. Ele ficou detido em uma cadeia em Cascavel. Defendido pelo jurista René Dotti, somente em 1978 o Estado foi condenado a pagar uma indenização de CR$ 12 milhões a Pecoits, além de uma pensão fixada na época em CR$ 73 mil.
As acomodações políticas prosseguiam, em meio à repressão. Em 1965, Paulo Pimentel foi eleito governador e assumiu em janeiro de 1966. Ney Braga foi nomeado ministro da Agricultura. O sucessor de Pimentel, deputado federal Haroldo Leon Peres (da Arena, o partido de direita), foi eleito de forma indireta no começo dos anos 70, avalizado pelo então presidente, o general Emílio Garrastazu Médici. E foi pelas mãos de Haroldo Leon Peres que o presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (IPPUC) de Curitiba, o arquiteto e urbanista Jaime Lerner, foi indicado como prefeito de Curitiba pela primeira vez.
Em 1965, com o AI-2 (que acabou com os partidos políticos) a maioria dos políticos migrou para a Arena, a Aliança Renovadora Nacional. Aqueles que desejavam uma oposição, ainda que tímida, estavam no MDB, o Movimento Democrático Brasileiro, que deu origem ao PMDB. Em 1966 foram instituídas as eleições indiretas para governador, através do AI-3.
Apesar das agruras na cena política, o lado econômico não andava mal. Na década de 60, o Brasil já apresentava um parque industrial integrado, fruto da implementação do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1956-60). E foi nos anos 60 que a economia do Paraná começou a mudar de perfil. Até então baseada na agricultura na região Norte, o destaque estava nas lavouras de café , a economia começou a dar os primeiros passos rumo à industrialização. Durante o primeiro governo Ney Braga, a infra-estrutura teve um salto, com a construção de rodovias e ferrovias, aumento da oferta de energia elétrica, adequação do Porto de Paranaguá, modernização das telecomunicações. Na década de 70, graças ao bom trânisto que tinha em Brasília, Ney Braga conseguiu emplacar, em pontos-chave da administração federal, técnicos do Paraná que colaboraram para atrair projetos ao Estado. Foi nessa época que se instalaram no Paraná o complexo cimenteiro, metalmecânico, que se consolidou a Cidade Industrial de Curitiba (CIC) e foi instalada a Refinaria de Petróleo Presidente Vargas (Repar) em Araucária (Região Metropolitana de Curitiba).
O AI-4 reafirmava a continuidade do regime, convocando o Congresso para discutir projetos de autoria da Presidência e estabelcendo normas constitucionais. O AI-5, de dezembro de 1968, decretou o recesso do Congresso. Esse mesmo AI-5 autorizou o presidente a fechar assembléias estaduais e câmaras de vereadores. O AI-5 suspendeu a garantia de habeas-corpus em casos de crimes políticos. O ano de 1968 foi marcado pelas manifestações estudantis. No Paraná, o ex-governador José Richa (1983-1986), que morreu no ano passado, começou sua trajetória política como líder estudantil na década de 50.

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