Para Stephanes, FHC ‘não quis ofender’
Ex-ministro aposentado precocemente diz que FHC quis chocar quando tachou de ‘vagabundos’ os aposentados antes dos 50
Leandro Donatti

Arquivo Folha
Nova óticaReinhold Stephanes, aposentado aos 46 anos: ‘‘Foi uma colocação forte, mais para acordar a população da necessidade da reforma’’ Ex-ministro da Previdência, o deputado federal Reinhold Stephanes (PFL), tentou amenizar ontem as declarações do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que tachou de ‘‘vagabundos’’ os que se aposentam no Brasil com menos de 50 anos. ‘‘O presidente quis dar um impacto, chocar a sociedade para alertar as diferenças’’, afirmou o ex-ministro, que também aposentou-se precocemente, aos 46 anos.
Stephanes disse que não se ofendeu com o ataque do presidente. ‘‘Não podemos mediocrizar a questão. O sistema previdenciário é injusto e precisa mudar’’, avaliou. Segundo ele, a antecipação das aposentadorias é uma prova de que as melhores categorias param de trabalhar mais cedo. Stephanes citou como exemplos os militares, magistrados, funcionários da Petrobrás e profissionais liberais.
Ele informou ainda que levantamento feito pelo Ministério da Previdência, durante sua gestão, revela que três milhões de pessoas se aposentaram precocemente no Brasil. ‘‘Chamar de vagabundo não foi para ofender. Foi uma colocação forte, mais para acordar a população da necessidade da reforma’’.
Reinhold Stephanes quis afastar as ilações feitas a respeito da sua aposentadoria, referendada por decreto do então prefeito de Curitiba, hoje senador Roberto Requião (PMDB), em dezembro de 85, e que até hoje lhe rende um adicional salarial de R$ 3 mil. ‘‘Ficam dizendo que eu me aposentei somente com 22 anos de serviço e isso não é verdade. Fui quatro anos presidente do INSS e outros quatro, cabo no Exército’’, explicou.
Na verdade, os questionamentos acerca da moralidade da aposentadoria de Stephanes não são de agora. Vêm desde o início do governo Fernando Henrique, quando o deputado federal paranaense foi convocado para a função. Stephanes aposentou-se com 22 anos de serviços prestados à Prefeitura e conseguiu incorporar cerca 13 anos de seu currículo como tempo de serviço. Na Prefeitura, trabalhou de fato seis anos.
De 1969 a 1983, passou por diversos ministérios, como o da Agricultura, Educação e Cultura e Previdência. Em 83 licenciou-se da função para exercer o mandato de deputado federal. Durante quatro anos, o ex-ministro teria recebido aposentadoria dupla, acumulada com a pensão paga pelo extinto Instituto de Previdência dos Congressistas (IPC) de 87 a 91.
Infeliz Para o advogado Pedro Dejneka, de Londrina, especialista em direito previdenciário, a declaração de FHC foi ‘‘infeliz’’. ‘‘Dá a impressão de que o governo dá a aposentadoria de graça ao cidadão’’. Ele diz que o governo desconsiderou ainda a idade precoce com que os brasileiros ingressam no mercado de trabalho, possibilitando a obtenção de aposentadorias até mesmo antes dos 50 anos. ‘‘Estes cidadãos contribuíram durante 35 anos para a Previdência e são condenados quando pleiteam um direito’’, critica.
Dejneka calcula que 80% da classe média consegue se aposentar entre 50 a 55 anos por manter registro em carteira. ‘‘O que não ocorre com pessoas humildes que têm dificuldade de comprovar as contribuições e só se aposentam com 63, 65 anos’’. (Colaborou Patrícia Zanin)

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