Nos últimos dias, os londrinenses têm visto de perto denúncias que há semanas assolam o PT nacional: caixa 2. No dia 27, nove meses depois do segundo turno do pleito que garantiu a reeleição de Nedson Micheleti (PT), uma ex-assessora financeira da campanha resolveu denunciar um suposto esquema em que teriam sido gastos R$ 5,2 milhões a mais do que os R$ 1,3 milhão declarados à Justiça Federal pelos petistas de Londrina.
Munida de uma agenda, canhotos de cheques, notas fiscais e uma memória privilegiada, Soraya Garcia, prestou depoimento à Justiça Eleitoral e relatou detalhadamente como entrariam recursos não declarados na campanha. ''Vinham em sacolinhas como estas'', dizia Soraya, apontando pequenas sacolas de plástico e papel com a logomarca de lojas de Londrina que entregou à Polícia Federal, que também irá investigar as denúncias. ''Tinha vez que o caixa oficial estava quase zerado enquanto o caixa 2 estava com muito dinheiro'', disse.
Após a confissão do ex-tesoureiro nacional do PT Delúbio Soares, de que o partido teria trabalhado com caixa 2, Nedson deu diversas entrevistas afirmando que em sua campanha, toda receita e os gastos foram declarados à Justiça. Segundo Soraya, o posicionamento do prefeito teria motivado a denúncia. ''Foi quando eu vi aquela entrevista ridícula em que o Nedson falava que aqui não tinha caixa 2. Eu acreditei que ele era uma pessoa íntegra'', afirmou.
Depois do escândalo nacional, lideranças petistas têm tentado minimizar a prática da contabilidade paralela nas campanhas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou que o caixa 2 é uma prática eleitoral que ocorre ''sistematicamente'' no Brasil.
No entanto, na avaliação do promotor da 41 Zona Eleitoral, Sérgio Siqueira, que recebeu a denúncia e está conduzindo as investigações, ''caixa 2 é indício de corrupção futura''. ''O grande problema do caixa 2 não é só o da contribuição não declarada. Esse dinheiro que entra no caixa 2 vem obviamente de lugares não declarados, pode vir de qualquer lugar, pode exigir qualquer coisa'', disse. ''Um volume grande no caixa dois supõe que pelo menos parte do dinheiro seja de origem ilícita, de corrupção, de lavagem'', afirmou.
A legislação eleitoral permite doações para campanhas, mas estabelece limites. Pessoas físicas podem doar até 10% do rendimento bruto obtido no ano anterior ao pleito. As empresas podem contribuir com até 2% do rendimento. Todas as doações têm que ser declaradas. ''A grande hipocrisia é que se o candidato declara que gastou muito, o outro sai falando que é uma campanha milionária. Hoje uma campanha é cara e ninguém quer a via legal de doação porque ela identifica o doador. Se sou identificado, mais tarde não posso exigir nada em troca. Agora, se eu dou dinheiro e não quero que o meu nome apareça, é porque mais tarde vou pedir algum favor'', concluiu o promotor.

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