Brasília - Apesar de Walter Delgatti Neto, preso na última terça-feira (23), ter confessado ser o hacker que invadiu contas de autoridades da Lava Jato, a Polícia Federal vê contradições em seu depoimento. Uma nova oitiva havia sido marcada para falar sobre pontos descobertos pela investigação. Delgatti tem sido chamado internamente por investigadores de "contador de histórias", característica considerada típica de estelionatários.

Ainda assim, a PF tem dito que o suspeito tem colaborado com a apuração.

Um dos exemplos principais de sua boa vontade, segundo policiais, foi o fato de ele ter disponibilizado senhas de seu celular e de serviços que armazenam dados nas nuvens da internet.

Conhecido como “Vermelho”, Walter Delgatti Neto disse em depoimento que repassou conversas da Lava Jato ao editor Glenn Greenwald, do The Intercept, de forma não remunerada. Ele afirmou ter pedido à ex-deputada federal Manuela D'Ávila (PCdoB) o contato do jornalista. O relato dele à Polícia Federal foi revelado pela GloboNews na sexta-feira (26).

Manuela D'Ávila confirmou na noite também de sexta que intermediou o contato de Delgatti Neto e Glenn Greenwald. Em nota, a ex-parlamentar disse que não tinha conhecimento da identidade da pessoa que entrou em contato com ela e ofereceu seu celular para perícia.

Glenn Greenwald, do The Intercept Brasil, disse por sua vez que a fonte que repassou conversas de autoridades da Lava Jato ao site afirmou que não pagou pelos dados nem pediu dinheiro a ele em troca do material. Nessa sexta-feira, o jornalista, um dos fundadores do site, revelou à revista Veja diálogo que manteve com a pessoa que repassou as mensagens vazadas a ele.

Greenwald afirmou que um dos primeiros contatos com a fonte aconteceu no início de maio deste ano e que foi apresentado a ela por um intermediário. Todos os contatos, afirmou, foram virtuais. O diálogo publicado por Veja ocorreu dias antes da primeira reportagem do Intercept com os vazamentos, em 9 de junho.

VERDADE OU MENTIRA?

Entre as contradições de “Vermelho”, investigadores dizem que o hacker faltou com a verdade sobre o número de autoridades que atacou. O suspeito limitou sua atuação a pouco mais de dez pessoas públicas. Ele afirmou ter sido o responsável por passar mensagens da Lava Jato para o site The Intercept Brasil, de forma anônima, voluntária, e sem edição.

Delgatti disse não ter sido o autor de invasões das contas do ministro Paulo Guedes (Economia) e da deputada Joice Hasselman (PSL-SP), por exemplo. Policiais apontam que a investigação tem um número muito maior de vítimas do que o Delgatti confessou, conforme trabalho da perícia.

Há mais de 5.000 ligações feitas de um canal vinculado a ele para tentativas de invasão, com cerca de mil alvos. As informações da PF serão usadas para confrontar o investigado em um segundo depoimento.

Outro episódio de contradição apontado pela polícia ocorreu no dia da busca e apreensão, na última terça (23). Segundo informações do Instituto Nacional de Criminalística, um dos celulares de Delgatti estava aberto na conta de Guedes no momento da operação. O telefone ainda iria passar por perícia, mas a questão já é tratada como confirmada.

A PF também tem na investigação mais detalhes de como o hacker começou a fazer as invasões. Alguns dos pontos apurados são diferentes daqueles declarados por ele em depoimento na última terça. Segundo o depoimento, Delgatti procurou Glenn Grennwald, fundador do The Intercept Brasil, por conhecer sua atuação no vazamento de documentos secretos dos EUA, no caso de Edward Snowden.

Segundo "Vermelho", em março de 2019 ele teria descoberto a maneira com a qual hackeou autoridades. À PF, Delgatti disse ter invadido o aplicativo Telegram de um promotor de Araraquara (SP) que o denunciou por tráfico, envolvendo apreensão de remédios em sua casa.

A partir da conta do promotor, acessou um grupo de Procuradores da República. Em seguida, teria acessado o ex-procurador-geral Rodrigo Janot, e, depois, de três procuradores da força-tarefa da Lava Jato, como o coordenador Deltan Dallagnol.

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