Único representante da Igreja Católica nas eleições de outubro, padre Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos, de 42 anos, defende que muitos dos 14 deles dedicados à vida eclesiástica tiveram finais de dia frustrantes daí a motivação para a carreira política. ''A maior parte das noites vou dormir com um sentimento de impotência por não conseguir resolver tanto problema que chega até mim'', explicou.
Candidato a vereador pelo PPS e pela segunda vez na corrida eleitoral em 2000, ele não conseguiu ser eleito deputado estadual com os 16,7 mil votos que recebeu , o padre conta que a veia política foi despertada já em Portugal, sua terra natal, onde atuou no movimento estudantil e de onde veio para o Brasil, aos 25 anos. Em Londrina, foi o representante da Igreja no Movimento pela Moralização, contra a corrupção no poder público.
Quanto à licença por escrito imposta pelo arcebispo dom Albano Cavallin, o padre diz que a aceita em termos se eleito, quer convencer o arcebispo a seguir em alguma paróquia. ''É um castigo desproporcional ao crime. Se o padre Marcelo Rossi (de São Paulo) tem dom para a música, por que não posso exercer meu dom para a política?'', questionou. ''A decisão é radical e, infelizmente, mostra o conservadorismo que ainda existe na Igreja Católica de Londrina.''
Questionado sobre o exercício da democracia em um plenário partidariamente tão segmentado, padre Manuel avalia que a figura de padre-vereador pode até lhe ser benéfica na aprovação de projetos. ''Não vou usar crucifixos nem carregar bíblias, mas tenho fé que minha presença vai inibir a formação de conchavos contra mim''.
Candidato pelo PTB a vereador, pastor Joed Lamônica Crespo, 54, vê na participação parlamentar a chance de expandir projetos sociais tocados por ele e a irmã à frente do Núcleo Social Evangélico de Londrina (Nuselon), entidade que atende cerca de 700 crianças. ''Pelo trabalho na entidade vi a carência que há em Londrina, de uma forma geral; apoiado por uns 150 representantes de outras igrejas, decidi que vou tentar esse caminho.''
Os 15 anos como missionário em Portugal, mais os sete dispendidos entre a faculdade e o curso técnico de Teologia, garantiu, não serão desperdiçados com a saída do púlpito mesmo porque ele não pretende deixar a celebração dos cultos. ''A palavra do culto é importante, mas não posso me limitar a ela. E ficar de fora do processo político é bem mais complicado para se resolver os males da sociedade, não?''
Apesar de ser conhecido pelos 35 anos de ordenação, o pastor Joed assegurou que a colocação do cargo ao lado de seu nome e foto, no material de campanha, não é uma forma de se apropriar da posição para tirar algum tipo de vantagem. ''É mesmo só para identificação'', justificou. ''Sei que se eleito acabo fortalecendo o segmento evangélico, mas a proposta não é essa. Tanto que espero o voto de muito católico nas urnas'', completou, certo de que o desafio vai além do 3 de outubro: ''É possível que haja conflitos entre os interesses dos partidos e os meus, em relação à política, mas não serei o único nem o último a enfrentar isso.'' (J.G.)

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