Marcos Borges/Folha de LondrinaPrefeito cítricoNelsão e as laranjas: o ex-gato transformou a grosseria dos adversários em lema de sua campanha A laranja virou símbolo da administração do prefeito de Florestópolis, Nelson Gonçalves Correia (PL), o Nelsão. Um visitante desavisado, alheio às disputas políticas locais pode até achar que a ‘marca’ é resultado de uma nova atividade agrícola no município, a citricultura. Engano.
Sem preocupar-se com as piadinhas e com a pecha de ingênuo, o prefeito assumiu de vez o ‘apelido’ dado pelos adversários nas campanhas para prefeito de 1992 e 1996. A laranja se transformou em sinônimo de resposta aos ataques. ‘‘Para eles, (os adversários) eu reservo o bagaço’’, ironiza. E trata logo de emendar: ‘‘para a população, o sumo’’, promete.
Em 1992, ele perdeu a prefeitura para Márcio de Souza (PFL). Naquela época, Souza já discursava, dizendo que Nelsão era candidato-laranja. Nas eleições do ano passado, o prefeito voltou a repetir o mesmo argumento contra o candidato, ao lançar o sucessor, João Bidufa, mas, ao contrário da primeira disputa, Nelson Gonçalves não respondeu às provocações. Ao contrário: passou a usar a cor laranja na campanha e mandou confeccionar adesivos em forma de laranja.
Na comemoração de sua vitória nas eleições, ele rodou a cidade de caminhonete levando um pé - de laranja. Agora, na condição de prefeito, a moda ‘alaranjada’ pegou de vez. Nos veículos da prefeitura, o nome da cidade tem na letra ‘‘o’’ o desenho da fruta. Até o futuro ginásio de esportes do município já ganhou nome antecipado: ‘‘Laranjão’’. A maquete está na entrada da prefeitura.
‘‘É minha fruta preferida’’, confidencia. O prefeito não teme que o apelido vá pegar. ‘‘Tudo que eles (os adversários) disseram foi para me desmoralizar, mas acabou virando piada’’, diverte-se.
Nelsão tem 33 anos, está se recuperando de uma embolia pulmonar que lhe deixou na UTI durante uma semana e tem uma curiosa história de vida. Foi trabalhador rural e acabou virando ‘gato’, mas prefere ser chamado de ‘empreiteiro’. ‘‘Geralmente o gato é mal visto, mas, eu, graças a Deus, tenho minha consciência tranquila. Tanto é que 80 por cento dos meus votos vieram da zona rural, desses trabalhadores’’, explica-se.
Ele começou trabalhando no campo, com 14 anos. De 84 a 92, foi chefe do Departamento Agrícola da Cofercatu. Na política, Nelsão vive sua segunda experiência - a primeira foi como vereador, de 89 a 92. Na Cofercatu, ele disse supervisionar mil pessoas por dia nas área de plantio, corte e queima da cana. Como ‘gato’, ele trabalhou de 92 a 96. ‘‘Já teve época da gente fretar oito ônibus’’, recorda. O ônibus do prefeito agora está sob os cuidados de um sócio. ‘‘Agora é dedicação total à prefeitura’’, argumenta.
Mas ele não consegue se desvencilhar do ‘vocabulário’ rural. ‘‘Compramos um alqueire e meio para o futuro parque industrial e quase um alqueire para o terreno do complexo esportivo’’, conta. Até a dívida da prefeitura com o FGTS ele raciocina com base em áreas rurais. A dívida, de acordo com a Caixa Econômica Federal, é assustadora: R$ 28 milhões. ‘‘Dá para comprar quase meia Florestópolis’’, calcula rápido. E explica: a área total de Florestópolis é de ‘‘10 mil alqueires’’ e o preço do alqueire é de R$ 5 mil. ‘‘Dá quase meia Florestópolis’’, repete, assustado.

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