Brasília - Sem protestos nem polêmica, o plenário do 4º Congresso Nacional do PT deu ontem ao comando do partido poderes totais para em 2010 fechar as alianças eleitorais que quiser e para intervir em qualquer seção estadual que as contrariar. O objetivo foi não criar obstáculos para a construção da coligação em torno da pré-candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência. Por avassaladora maioria, a primeira plenária da reunião, comandada pelo novo presidente da legenda, José Eduardo Dutra, rejeitou todas as propostas de modificação nos textos apresentados pela Executiva Nacional e discutidos de manhã. Diferentemente do tempo em que o partido era oposição, os grupos mais à esquerda não protestaram. Limitaram-se a fazer discursos de crítica, apoiados por alguns aplausos. O outro lado não reagiu nem quando foram lembrados pecados do governo e do PT.
''Alianças para quê? Para continuar o balcão de negócios no Congresso Nacional? Aquilo que nos levou ao mensalão?'', perguntou em discurso Markus Sokol, da tendência trotskista O Trabalho, mencionando palavra tabu para a maioria petista. O discurso oficial é o de que os pagamentos oficiais em troca de apoio parlamentar, denunciados em 2005 pelo então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), não existiram. Na sessão da tarde, porém, foram aprovadas propostas mais à esquerda, mas que não interferiam na montagem da campanha de Dilma, como a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e apoio ao Programa Nacional de Direitos Humanos.
No debate da manhã, Sokol defendeu uma resolução política que, ironicamente, pedia ''um governo do PT'', em aliança com os movimentos sociais. Também falava em nova Assembleia Nacional Constituinte, rechaçava a aliança com o PMDB e atacava o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e os ministros da Agricultura, Reinhold Stephanes, das Comunicações, Hélio Costa, e da Defesa, Nelson Jobim. ''Não é por acaso que todos se juntaram à cúpula do clero e às redes de televisão para atacar o Programa de Direitos Humanos'', disse. Outro militante, Sérgio Goulart, disse ser ''humilhante ver o ministro da Defesa dar ordens ao presidente'' - referência ao episódio em que Jobim e os comandantes militares ameaçaram se demitir, em protesto contra a criação de uma Comissão da Verdade para investigar crimes da ditadura. Mas a proposta de resolução da Executiva, propondo ampla aliança, foi aprovada.
Também fracassou a tentativa de grupos de esquerda de dar aos encontros estaduais do PT a última palavra para decidir as alianças regionais. O dirigente petista Renato Simões traçou um quadro de paralisia do PT em alguns Estados, devido à demora para decidir as coligações e à inação do partido para montar candidaturas próprias aos governos estaduais. Também reclamou que a antiga regra petista, de lançar candidatos em todos os níveis, virou exceção, devido às coligações encabeçadas por outros partidos.
A manutenção da proposta da Executiva, que dava à Executiva Nacional poder de decidir em última instância as alianças regionais - ou seja, o poder para intervir - foi defendida pelo ex-ministro da Saúde Humberto Costa, pelo deputado federal José Eduardo Cardozo (SP) e por Jilmar Tatto. Cardozo chegou a chamar o PT de ''exército que vai combater o neoliberalismo''. A proposta da esquerda também perdeu por ampla maioria.
''O PT é um partido nacional, portanto, a sua linha deve ser decidida nacionalmente'', explicou Cardozo em entrevista. ''Temos de respeitar as peculiaridades regionais, mas haverá um esforço para construir a maior unidade possível. Foi derrotada a visão que pulverizava o PT, transformava o PT em ilhas regionais.'' Entre os Estados com problemas para fechar alianças regionais estão Minas Gerais, Pará, Ceará, Pernambuco, Bahia e Mato Grosso do Sul.
Na discussão de política de alianças, também foi mantida a proposta da Executiva, que, genérica, não fala especificamente em nenhum partido como aliado. Foram rejeitadas emendas que apontavam o PMDB, por um lado, e o PDT, o PSB e o PC do B, por outro, como prioritários. Dirigentes do PT, contudo, explicaram que isso não significava rejeição a essas legendas, apenas cuidado para não privilegiar nenhum partido, o que poderia provocar problemas. ''Queremos casar sim com o PMDB. Estamos casados hoje, PT, PMDB, PSB, PDT, estamos casados hoje sob o governo Lula e queremos continuar casados no governo Dilma'', disse o novo presidente do partido.

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