Para economista, bancos impõem "escravidão financeira"
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sábado, 13 de abril de 2019
Mariana Franco Ramos - Grupo Folha 

Curitiba - Sócio fundador do grupo Brasil Plural e autor do best-seller “Encantadores de Vidas”, o engenheiro, palestrante e economista Eduardo Moreira faz duras críticas à proposta de reforma da previdência, que segue tramitando no Congresso Nacional, e à maneira como atuam os bancos privados no Brasil. Ele conversou com a FOLHA nessa semana em Curitiba, durante um encontro que debateu os rumos da democracia no País.
"Todas as vezes que você exerce uma relação de domínio, de tirar vantagem de alguém em cima de uma simetria de conhecimento, ou seja, de um conhecimento que você tem e a outra pessoa não tem, isso para mim representa um ato de covardia. Os bancos sabem como funcionam os instrumentos no mercado financeiro e eles se relacionam com clientes que têm uma falta de conhecimento total", destaca.
Moreira estudou na Universidade da Califórnia de San Diego (UCSD), onde obteve um Minor Degree em Economia e foi eleito o melhor aluno do curso dos últimos 15 anos. Também trabalhou no Banco Pactual até 2009, ou seja, conhece o setor "de dentro". Ainda assim, tornou-se um crítico feroz do sistema. Ele diz que os clientes das instituições bancárias não sabem quais as tarifas, quais as corretagens que estão sendo pagas, quais os riscos que estão correndo e, simplesmente, vão naquilo que o gerente ou instrutor financeiro fala que é ideal.
"O problema é que o banco ganha tanto mais dinheiro quanto o cliente deixa de dinheiro na mesa. A riqueza que existe para ser distribuída é fixa, é finita, e tem de ser distribuída entre banco e cliente. A única maneira do banco ganhar mais é fazendo o cliente ganhar menos. Então, você tem um conflito de interesses enormes. E, para piorar, as pessoas que vendem os produtos bancários - gerentes e consultores - são remuneradas em cima do lucro que conseguem para o banco. Nunca vão vender uma coisa que é boa para você", prossegue.
Para o economista, esse tipo de relação é extremamente covarde e prejudicial às pessoas. "No Brasil, a gente tem um contingente enorme de pessoas que acabam se tornando escravas financeiras. Quando conseguem juntar um pouquinho de dinheiro, não têm rentabilidade nenhuma e, quando dão uma vacilada, entram em dívidas enormes, que viram bola de neve. Quando você vê pegou R$ 1 mil emprestado, depois de dois anos pagou R$ 3 mil e deve mais R$ 10 mil. Passa a viver só para pagar juros. É uma nova forma de escravidão, a financeira", opina.
ROBIN HOOD ÀS AVESSAS
Sobre o fato de ele próprio ter trabalhado no setor, Eduardo Moreira argumenta que, com o passar do tempo, foi entendendo essa engrenagem. "Somos grandes carimbadores. Passamos o dia inteiro vendo uma planilha de Excel, vendo um documento que precisa ficar pronto, calculando uma quota de fundo. Acabamos nos especializando numa coisa só e não conseguimos ver o todo. Quando consegui ligar os pontos, vi que existia uma enorme máquina de desigualdades, um Robin Hood às avessas. Quem tem pouco dinheiro no banco paga tarifa alta e tem rentabilidade baixa. Quem tem muito dinheiro paga tarifa baixa e tem rentabilidade alta".
Na avaliação do economista, não há a menor possibilidade de o atual governo, de Jair Bolsonaro (PSL-RJ), "defender a população do mercado financeiro". "Os ministros da educação e da economia são do mercado financeiro, os presidentes dos bancos estatais são do mercado financeiro, as pessoas com quem eles vão se consultar, os amigos, os padrinhos dos filhos, as esposas... São do segmento que mais concentra riqueza e menos produz. A agenda do governo é transformar a previdência num regime de capitalização e privatizar a saúde".
Questionado se o Brasil poderia "quebrar" sem a reforma, ponto destacado pela base governista em Brasília, Moreira ironiza. "O que quer dizer quebrar? Que você vai ter que sentar com as pessoas para quem o governo deve dinheiro e dizer que precisa renegociar? Não é isso que estamos fazendo com os aposentados? A gente prefere quebrar com os aposentados do que com os banqueiros? Não existe lugar nenhum na Constituição que coloque as pessoas que emprestaram dinheiro para o governo em prioridade. Mas existe um artigo, o sexto, que diz que todo brasileiro tem direito à saúde, moradia, educação, lazer. E essa dívida? Não tem que ser paga?"


