Para delegado,''limpeza é um mal necessário''
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domingo, 30 de novembro de 2003
Edson Luiz<br> Agência Estado 
Brasília - O diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, costuma aparecer com um semblante triste nas fotos publicadas pelos jornais. Delegado federal aposentado, ele se diz disposto a cortar ''o mal pela raiz'', prendendo ex-colegas acusados de envolvimento com o crime. ''Isso, infelizmente, é um mal necessário'', justifica.
Agência Estado - A prisão de quase 50 policiais e delegados federais este ano manchou a imagem da Polícia Federal?
Paulo Lacerda - Não deve ter havido questionamentos dentro e fora da instituição. É um mal necessário. As pessoas precisam ter na mente que um órgão que trabalha na apuração de crimes necessita de isenção. E, por isso, a limpeza é um mal necessário.
AE - Qual foi sua reação ao ficar sabendo do envolvimento com o crime de delegados experientes, considerados exemplares na PF?
Lacerda - Estamos acostumados a lidar com situações de corrupção isolada, mas neste caso nos deparamos com uma reiterada prática característica de crime organizado em instituições que existem para combater justamente isto, o crime organizado. E estamos tratando o caso como deve ser mesmo tratado. É um caso muito grave. Não há como desconhecer o Bellini (o delegado José Augusto Bellini, um dos presos pela Operação Anaconda) dentro da PF. Mas causou surpresa ver que, depois de tantos anos, ele está num envolvimento danoso com a corrupção.
AE - Uma das grandes reclamações é o excesso de trabalho da PF e a falta de dinheiro. Como conciliar isso?
Lacerda - Vivemos no crédito. Estamos devendo, mas esperamos normalizar o fluxo financeiro. Vamos encerrar o ano pagando tudo, mas as dívidas não estão prejudicando nosso trabalho. Hoje você não vê ninguém dizer, dentro da Polícia Federal, que não fez isso ou não fez aquilo por falta de dinheiro. Há casos em que policiais tiram dinheiro do próprio bolso, mas, além de tudo, é uma demonstração de espírito público. E ele sabe que vai receber.
AE - Na Operação Anaconda o sr. chegou a receber algum tipo de pressão?
Lacerda - Não tenho tido nenhuma pressão de nenhum lado, nem dos envolvidos. É preciso que uma coisa fique bem clara em relação aos policiais federais de São Paulo: a maioria é gente honesta e trabalhadora. Eles, certamente, também se encontram constrangidos e estão chocados com as denúncias, e jamais se voltaram contra a instituição.
AE - E como fica o Poder Judiciário, com o envolvimento dos juízes na corrupção?
Lacerda - O que está acontecendo agora são casos isolados. Não se pode generalizar para todas as instituições, onde existem pessoas reconhecidamente competentes. Muitas vezes reclamamos da morosidade do Poder, mas isso já se está corrigindo com leis que impõem a celeridade, uma grande necessidade, pois a demora causa na sociedade uma sensação de impunidade.


