Para conseguir reeleição, FHC ameaça Congresso com plebiscito
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terça-feira, 14 de janeiro de 1997
Ricardo Amaral Agência Estado 
BRASíLIA - O presidente Fernando Henrique Cardoso tem uma razão insuperável para insistir tanto na reeleição, ameaçando até convocar um plebiscito se não conseguir a mudança das regras pelo Congresso. É que Fernando Henrique não vê, na paisagem política, nenhum outro candidato capaz de dar sequência ao projeto de ajuste da economia e modernização do País, que ele iniciou quando ainda era ministro da Fazenda no governo Itamar Franco.
Quem, se não eu? _ perguntou o presidente a um amigo que discutiu o assunto com ele, às vésperas da convenção do PMDB. A indagação, segundo esse amigo, não carregava nenhum tom de desafio. Era mesmo a constatação de que não há outras lideranças em seu campo político, capazes de, vencendo as eleições de 1998, conduzir a equipe econômica e o arranjo partidário que sustenta o governo. Ele concede, no máximo, uma chance ao governador do Ceará, Tasso Jereissati.
Às vezes eu me preocupo com isso, prosseguiu o presidente. Fico pensando no que aconteceria se eu ficasse doente. Nessa hipótese, assumiria o vice-presidente Marco Maciel, do PFL, que é uma importante linha auxiliar do governo, mas é apenas isso. O presidente não disse, mas ficou no ar a sugestão de que ocorreria uma reversão de expectativas semelhante à que houve em 1985, quando Tancredo Neves morreu e deixou o governo para José Sarney.
Fernando Henrique está seguríssimo de que, numa consulta popular, conseguirá o direito de reeleger-se para um segundo mandato. Hoje, o deputado Aloysio Nunes Ferreira (PMDB-SP), aliado do governo, cuidava de levantar todos os projetos em tramitação no Congresso para regulamentar o assunto. A Constituição prevê o plebiscito e o referendo, mas deixou para a legislação ordinária estabelecer os mecanismos de convocação das consultas.
É uma carta que temos na manga e estamos pensando seriamente em utilizá-la, disse um dos articuladores políticos do governo. Hoje, em almoço na casa do presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), os líderes políticos mais fiéis ao governo discutiram o assunto. Se o presidente quiser recorrer ao plesbicito, terá o nosso apoio, relatou um dos presentes.Ele pode fazer a aposta porque tem cacife para isso.
Há setores do PSDB, no entanto, que preferem não recorrer a tanto. Argumentam que a vitória seria certa, de acordo com o que indicam as pesquisas de opinião, mas o custo institucional seria alto demais. Recorrer à democracia direta, segundo esses tucanos, deixaria o Congresso ainda mais desmoralizado junto à opinião pública, e o governo precisa de um Congresso com legitimidade suficiente para aprovar novas reformas constitucionais.
Dependendo do comportamento do PMDB nos próximos dias, o governo decidirá se recorre ou não ao plebiscito. Por acreditar que ainda pode reverter a rebeldia do PMDB, o presidente mandou o porta-voz Sérgio Amaral dizer ontem que não cogita convocar as urnas. Na verdade, está guardando a arma para usar no momento certo.


