Logo que assumiu a Prefeitura de Londrina, em longa cerimônia marcada pelo discurso político-religioso, dia 1º de maio - e após um tumultuado, cansativo e inédito processo eleitoral de três turnos -, o prefeito Barbosa Neto (PDT) lançava, em tom sentencioso, aquele que seria seu maior desafio para os primeiros meses de mandato: ''ter a confiança de toda a população de Londrina''. Horas depois do discurso de posse, contudo, a primeira prova do que viria pela frente: cerca de 80 pessoas invadiam um terreno público na Zona Leste, movimento classificado por ele como ''jogo marcado, orquestrado, político''.
Paralelo a um conturbado jogo de forças com o Legislativo municipal - relacionamento que ele prefere taxar de ''republicano'', apesar das farpas públicas -, o jornalista e empresário foi cedendo espaço, aos poucos, para o político que gosta de chamar para si o comando da cidade, seja em coletivas semanais ou em eventos de forte apelo popular, como, mais recentemente, a entrega de brinquedos a crianças carentes ou jogos de futebol com estrelas da bola. O mesmo político, por sinal, que vociferou na rádio de sua propriedade, semanas atrás, contra um ex-secretário da gestão passada - cujo nome ele preferiu não declinar - contrário à Guarda Municipal: após chamá-lo de ''desvairado'', sugeriu que o desafeto fosse às seis da manhã à prefeitura. O qual, meses depois, questionado na Câmara sobre a lisura do contrato para o concurso da Guarda Municipal, sugeriu aos vereadores que cuidassem ''do próprio rabo''.
Esses são apenas alguns dos episódios que marcam o relacionamento de Barbosa com setores da sociedade civil. Relacionamento que, assim como em mais de uma oportunidade com a Câmara, deu sinais de desgaste e falta de sintonia, para alguns, e de traquejo político, para outros. A crise na Sa© úde e a tentativa frustrada de reajuste da Planta de Valores são algus exemplos (veja quadro).
Para o sociólogo Marco Rossi, a quem, meses atrás, os 100 dias de governo Barbosa indicavam uma gestão ''flutuante'', ''pouco ou nada mudou''. O estudioso aponta o que chama de ''falta de uma biografia política consistente'' para explicar algumas das dificuldades de interlocução do ''chefe da cidade'' com setores que a compõem.
''Ele tem uma dificuldade grande de se inserir, de formar uma maioria, compor uma liderança - no caso do Legislativo. E não conseguiu articular a sociedade organizada: empresários, atacadistas e varejistas, até porque ele não tem um projeto, uma biografia que permita lançar para esses setores algo de credibilidade'', define. ''Ele é uma figura que gera a instabilidade, é carente de um lastro político mais forte - e com a ausência de políticas públicas efetivas, de longo prazo, as carências não param de crescer; que investidor vai querer depositar aqui milhões? Quem está de fora, olha tudo isso com muita desconfiança - e os prefeitos anteriores, por mais defeitos que tivessem, adotaram o pacto pela cidade, reunindo, em alguns momentos, as partes contrárias. Este governo ainda não o conseguiu.''
Na avaliação do sociólogo, o hábito do pedetista em chamar para si o comando, em determinadas ocasiões, e nem sempre em um tom amigável, não aglutinou as diferenças. ''Tem que ser transparente no plano de governo, e isso também se faz conquistando as lideranças de classe média. Não basta ser apenas pelas palavras, pelo olhos nos olhos ou pelo brado'', atesta. ''Vocação para política ou se tem, ou não se tem. Na falta de fazer política, o prefeito fica com esse resquício populista do (ex-prefeito) Antonio Belinati e adota bravatas do 'acordar cedo todo dia', do 'a cidade tem comando'... Por pouquíssimo tempo, um ou outro acredita nisso - mas hoje a sociedade está cada vez mais pragmática, quer uma política de resultados. Não adianta espernear se o posto não tem médico para atender.''
Se ele é otimista quanto às perspectivas para os próximos anos? Rossi conclui: ''Enquanto o cidadão estiver afastado, enojado da política, esse quadro sistêmico não vai mudar. Política é cidadania, cidadania é liberdade, e liberdade é participação - e um dia depois do outro'', ensina.





CALENDÁRIO DA GESTÃO

Veja, abaixo, alguns episódios polêmicos - que marcaram os sete primeiros meses da administração Barbosa Neto (PDT):

MAIO
- Cerca de 80 pessoas invadem terreno da Prefeitura na Zona Leste de Londrina.
- Anúncio de redução de comissionados e de salários de diretores da CMTU, a fim de gerar uma economia de R$ 4 milhões até o final do ano.
- Anúncio do Profis para 30 mil contribuintes.
- Doação da área para ampliação da pista do Aeroporto.
- Apresentação do projeto Cidade Limpa encontra resistência de setores como a APP, que representa cerca de 3 mil trabalhadores.

JUNHO
- Vem à tona contrato da Contad (empresa da família do vice-prefeito, José Ribeiro) com a SP Alimentação.
- Declaração de Nelson Brandão à FOLHA, de que ''6 ou 7'' áreas estavam em estudo para o futuro Teatro Municipal, causam furor nos meios artístico e imobiliário. Barbosa e o então secretário de Governo, José do Carmo (PTB), negam; dias depois, após protestos na Câmara, o prefeito admite estudo para levar o Teatro ao Jardim Botânico. Logo depois, ele desiste - assegura o empreendimento na área do Marco Zero.
- De 23 de junho a 3 de julho - primeira viagem internacional, de 10 dias, a Europa.
- Ex-assessores e ex-chefe de gabinete, Assad Jannani, são ouvidos por carta precatória no procedimento da Operação Gafanhoto, que apura também supostos casos de assessores fantasmas na Assembleia. Procedimento teve início em 2003, com denúncia do hoje comissionado Agnaldo Rosa.

JULHO
- CEI do Transporte termina e sugere tarifa de R$ 1,99, mais rompimento de contrato com as empresas. Barbosa ataca: quem defende isso quer ''jogar pra torcida'' e ''é irresponsável''.
- Sinttrol vota greve dos trabalhadores do transporte, enquanto Barbosa anuncia estudo técnico na planilha entre UEL e CMTU.
- Dia 30: anúncio de 5% de reajuste tarifário. Tarifa a R$ 2,10.

AGOSTO
- 100 dias de ''governo flutuante'', segundo analistas ouvidos pela FOLHA.
- Prefeito é cercado por cambistas que vendem créditos de cartão-transporte que se disseram ''impedidos de trabalhar''.
- Anúncio de empréstimo de R$ 19 mi, do Estado, para asfalto
- Anúncio da criação da futura Guarda Municipal, que custará R$ 5 mi/ano.
- Ambulantes vão à Câmara em protesto contra desocupação das calçadas da Benjamin Constant.

SETEMBRO
- Anúncio da criação da Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos - nomeação de Jair Gravena para o posto.
- Anúncio da criação da Secretaria Municipal da Defesa Social
- Segunda viagem internacional ao prefeito - de 25/9 a 2/10, em comitiva ao Japão.

OUTUBRO
- Primeira mudança de secretariado (cinco alterações).

NOVEMBRO
- PSs que atendem pelo SUS páram, por não receber plantão à distância há 4 meses.
- Secretário municipal de Sa© úde, Agajan Der Bedrossian, admite que o Executivo pediu auditoria nos contratos com filantrópicos ao Denasus. Paralisação dura seis dias.
- Início da reforma do Calçadão e revolta de comerciantes.

DEZEMBRO
- Câmara questiona concurso da Guarda Municipal e pede suspensão do edital.
- Barbosa contra-ataca e acusa seu ex-líder, Joel Garcia, de pedir favorecimento na licitação da merenda. Joel o chama de ''Requiãozinho''.
- Prefeito vai ao MP e formaliza denúncias contra Joel, que acaba alvo de três ações.
- Planta de valores - que previa aumento de 400% a alguns imóveis - é rejeitada na Câmara. IPTU 2010 fica apenas com índice da inflação.
- Segunda mudança no secretariado (sete alterações) deixa claro o aparato para reforçar os mecanismos de ação com o Legislativo: três nomes do alto escalão ficam designados para tal.

Fonte: Redação

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