Agência EstadoCobrançaO presidente Fernando Henrique, o Papa João Paulo II e dona Ruth, no Vaticano: conversa reservada de 45 minutosA reforma agrária no Brasil foi tema da conversa reservada ontem entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e o Papa João Paulo II, que durou 45 minutos na biblioteca do Vaticano.
Na íntegra do discurso divulgado pelo Vaticano, o Papa diz que o ‘‘empenho por uma reforma agrária atuada de acordo com as leis vigentes justificam iniciativas sempre corajosas visando ao enobrecimento da causa democrática’’. A frase em que se referia ao problema fundiário não foi lida pelo papa, que demonstrou dificuldade para falar.
Em entrevista ontem à tarde na residência da Embaixada do Brasil no Vaticano, o presidente contou que o Papa quis saber como era o problema no Brasil. ‘‘Contei o que nós estamos fazendo, qual é o problema, quais são as dificuldades.’’
Na entrevista, o próprio Fernando Henrique, falando sobre o Movimento dos Sem-Terra, destacou esta frase: ‘‘O papa disse uma coisa importante: tem que se resolver dentro da lei.’’
O presidente também recorreu à ironia para dizer que só agora, quando o governo está tentando resolver o problema da reforma agrária no Brasil, é que estão falando de terra fora do País. ‘‘Eu morei na Europa e ninguém falava de terra, agora que estamos resolvendo é que começaram a falar’’.
Quando os jornalistas tocaram na referência feita pelo reitor da Universidade de Bolonha à gravidade da questão agrária no Brasil, Fernando Henrique respondeu: ‘‘Estou preocupadíssimo com o desemprego na Europa, vocês não sabem quanto...’’
Fernando Henrique repetiu as medidas tomadas pelo governo para resolver a questão da terra, como o assentamento de 100 mil famílias, a aprovação do Imposto Territorial Rural (ITR), que pune os interesses de latifundiários, e a aprovação do rito sumário para desapropriações no Congresso.
Disse que o que mudou foi a atitude do governo em não esconder mais os problemas, mas rechaçou críticas que ignoram as medidas em andamento para resolver a questão da terra.
A atuação dos sem-terra também foi alvo de críticas do presidente, que lembrou quando os recebeu por duas horas em seu gabinete, no Palácio do Planalto. ‘‘A primeira coisa que eles perguntaram foi se poderiam pôr a bandeira do MST na sala; eu respondi: aqui não, aqui é só a do Brasil, esta aí de vocês me parece uma coisa meio primitiva’’.
Segundo o presidente, não há nada que o leve a dizer que não quer dialogar com os trabalhadores sem-terra, ‘‘eles é que não querem dialogar’’.
‘‘Enquanto estiverem agindo desta forma, eles estão atrapalhando a imagem deles próprios’’, afirmou. Numa democracia, continuou, as pessoas se comportam democraticamente ou ficam isoladas. ‘‘Quando você, ao invés de dialogar, atira pedras, quem fica mal é quem joga pedras’’.
Para o presidente, não é preciso criar um clima pelo qual parece que ‘‘o campo está pegando fogo’’. ‘‘Não é bem assim’’, disse. Ele afirmou também que não aprova apressar as desapropriações de áreas ocupadas, porque isto incentiva ocupações de terras. ‘‘É preciso dar velocidade ao processo para ultrapassar o que o MST possa querer fazer em termos de conflito’’, afirmou.
O presidente Fernando Henrique também reagiu ao manifesto assinado por 67 intelectuais italianos que pedem maior empenho na questão da terra. Disse ser ‘‘lamentável que assinem coisas sobre as quais não sabem nada’’. ‘‘Acho que intelectual sério tem que discutir seriamente, como é que vai escrever uma coisa sobre a qual não sabe?’’

mockup