O País consumiu 47 mil megawatts (mw) de energia elétrica no mês de maio, reduzindo 9 mil mw em relação ao total gasto em abril, quando fechou o mês com a utilização de 56 mil mw. Representa uma economia de 16%. Os números foram revelados pelo coordenador da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (CGCE) e diretor geral da Itaipu, Euclides Scalco,
em entrevista à Folha , em Foz do Iguaçu, logo após a reunião do Conselho de Administração da hidrelétrica binacional realizada na última sexta-feira.
O encontro contou também com a participação do presidente da CGCE, ministro Pedro Parente, que também integra o conselho da usina (são seis conselheiros brasileiros e seis paraguaios). A reunião foi ordinária, realizada a cada dois meses. Ambos disseram que trataram de assuntos estritamente administrativos. Os dados apresentados por Scalco sobre o consumo de energia foram repassados pelo Operador Nacional de Sistema (ONS), refletindo a disposição dos brasileiros em cooperar com o País.
‘‘A sociedade aderiu simpaticamente e fez economia antes que o plano do governo fosse estabelecido efetivamente’’, comentou Scalco, reiterando que a capacidade instalada no Brasil ainda é superior ao consumo atual. ‘‘As usinas, tanto estatais quanto privadas, geram 74 mil megawatts, índice superior ao pico de consumo registrado em 24 de abril, que foi de 56 mil megawatts. O que falta mesmo é água para abastecer os reservatórios.’’
Os representantes da CGCE disseram ainda que os dois transformadores queimados da terceira linha de Itaipu, que vai de Foz do Iguaçu a Tijuco Preto (SP), estão sendo recondicionados na Ucrânia. Eles serão recolocados em agosto, capacitando a transmissão de mais 400 megawatts, energia suficiente para abastecer uma cidade de até 400 mil habitantes.
Sobre a situação confortável do Paraná em relação a outros estados, apontada por especialistas do setor, Scalco disse que não vê como um privilégio. ‘‘O sistema elétrico brasileiro é interligado. O Paraná é rico em energia porque tem a Itaipu e mais quatro usinas no Rio Iguaçu, totalizando 18 mil megawatts instalados. Mas isso não tira a possibilidade de o sul entrar no racionamento.’’
Veja a seguir a íntegra da entrevista:
Folha : Qual a real situação do País em relação ao possível colapso energético?
Euclides Scalco : Hoje a situação é de normalidade. Já estamos no plano de racionamentos para as regiões sudeste, centro-oeste e nordeste. Esperamos evitar, com esse plano, qualquer corte programado para frente, já que colocaríamos o comércio, a indústria e demais atividades econômicas do País em uma situação difícil. Aguardaremos até o fim deste mês para fazer novas avaliações, mas temos convicção que, ao atingirmos a redução de 20%, evitaremos qualquer apagão.
Folha : O diretor do Operador Nacional de Sistema, Roberto Gomes, afirmou que a região sul não deve passar por racionamento. Isso está confirmado?
Scalco : Na região sul está sobrando energia. Tanto que estamos enviando o excedente para o centro-oeste e sudeste. Nossos reservatórios estão com mais de 70% de sua capacidade útil, deixando nossa região em uma situação bastante cômoda. Isso inclui também o Mato Grosso do Sul. Mas as variações climáticas não nos dão muitas garantias.
Folha : Atualmente, qual a capacidade energética do País?
Scalco : A instalação de usinas, tanto privadas quanto estatais, tem uma capacidade montada de 74 mil megawatts. Teríamos energia sobrando se não fosse a grande dependência das águas.
Folha : As informações sobre a crise da energia elétrica começaram a ser repassadas à população no início de abril. De lá para cá, o País economizou alguma coisa?
Scalco : O pico registrado no Brasil foi no dia 24 de abril, quando se consumiu 56 mil megawatts. Dados recentes obtidos junto ao ONS mostram que o País reduziu esse índice (no final de maio) para 47 mil megawatts. São 9 mil megawatts a menos. Isso demonstra que a sociedade aderiu simpaticamente ao programa de economia, mesmo antes da execução do plano do governo federal.
Folha : Essa redução de consumo ameniza o problema?
Scalco : O problema continua sendo a falta de chuvas. Máquinas instaladas existem, mas ainda falta água. Não choveu em Minas Gerais, em uma área de 400 quilômetros quadrados onde estão as cabeceiras dos rios Grande e Parnaíba, que abastecem a bacia do Paraná, e o Rio São Francisco, que abastece as usinas de Paulo Afonso e Xingó.
Folha : Mesmo com as condições climáticas atípicas, deixar de estabelecer projetos prévios para evitar essa crise não foi uma irresponsabilidade do governo?
Scalco : Projetos já estavam sendo feitos. Houve um retardamento no programa de termoelétricas em função de questões ambientais e de riscos cambiais, mas isso está sendo resolvido agora para não termos mais problemas no futuro. A questão principal é: a maior parte - 92% - da geração de energia no Brasil sai de hidrelétricas, ou seja, depende das chuvas. Por isso, é importante termos pelo menos 30% de energia alternativa para que não estejamos submetidos às questões sazonais de chuvas.
Folha : Como está a situação do terceiro linhão construído pelas Furnas entre Foz e Tijuco Preto (SP)?
Scalco : A conexão já estava pronta, mas dois transformadores queimaram, impedindo a transmissão de mais energia. Eles estão sendo recondicionados na Ucrânia (foram comprados por licitação internacional) e devem ser recompostos em agosto. Com isso, Itaipu terá condições de enviar outros 400 megawatts de energia ao sudeste.
Folha : A curto prazo está sendo discutido racionamento de energia, mas quais são os projetos do governo a médio prazo?
Scalco : A Câmara de Gestão da Crise Energética (CGCE) conta com dois grupos, sendo um coordenado por mim (controle de consumo) e outro pelo ministro José Jorge (Minas e Energia), que estuda as ofertas e alternativas para colocar mais energia no País. A médio prazo, buscaremos energia produzida por bagaço de cana, pelos ventos, solar e ainda agilizar o programa de térmicas e nucleares, como Angra III.
Folha : As termoelétricas enfrentam problemas ligados às licenças ambientais. O que está sendo feito para agilizar isso?
Scalco : A Medida Provisória publicada no dia 22 de maio reduz os prazos de avaliação do Ibama. De acordo com as circunstâncias, o instituto tem agora três, quatro e até seis meses para liberar as licenças ambientais, tanto para as termoelétricas quanto para outras obras ligadas à geração e transmissão de energia.
Folha : O Paraná está em situação privilegiada no contexto nacional?
Scalco : Não podemos considerar um Estado isoladamente porque todo o sistema está interligado. Por questões naturais, o Paraná é o mais rico em energia porque conta com Itaipu e mais quatro usinas no Rio Iguaçu, totalizando 18 mil megawatts instalados. Podemos dizer que na região sul, hoje, sobra energia e não há necessidade de racionar. Mas se a situação complicar, a região vai entrar no racionamento.
Folha : Informação ao consumidor: está ou não sendo discutido em Brasília aumento no preço da energia elétrica? O brasileiro vai pagar mais caro nos próximos dias pela luz que chega na sua residência?
Scalco : A Câmara de Gestão (CGCE) estabeleceu apenas a sobretaxa já divulgada pelo governo, que varia entre 50% e 200%. Esse dinheiro será colocado em um fundo e usado para bonificar aqueles que econimizarem energia em casa. Não haverá aumento de tarifa nominal.

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