Curitiba - Desde que o ex-presidente Fernando Collor de Melo (PRN) foi obrigado a renunciar para não ser defenestrado do Palácio do Planalto pelo processo de impeachment, há mais de dez anos, o brasileiro não assistia a um espetáculo tão deprimente de corrupção. A denúncia de que parlamentares da base aliada receberiam mesada, o chamado mensalão, para apoiar projetos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sacudiu o palco político e o mercado.

Ao mesmo tempo em que o PT nacional patina na crise, em Londrina o prefeito Nedson Micheleti (PT) arranjou uma enorme dor de cabeça. A Polícia Federal confirmou a existência de caixa 2 na campanha para reeleição em 2004. ''O prestígio das instituições públicas já não era bom. E agora então fica bem pior'', analisa o professor Antônio Celso Mendes, do Centro de Ciências Jurídicas e Sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná.

Formado em Filosofia e Direito, é doutor em Filosofia do Direito. Em entrevista à Folha, Mendes analisa desde o caixa 2 em Londrina até o abalo no Congresso Nacional, sugerindo formas de combater a falta de ética crônica no País.


Folha - A crise atual no governo federal abala as instituições até que ponto?
Mendes - Abala no conceito porque, na verdade, o prestígio das instituições públicas já não era bom. E agora então fica bem pior. Eu não creio que possa ter abalo institucional para modificar o atual sistema, mas ele abala conceitualmente. Quer dizer, a imagem do Congresso e das instituições públicas de um modo geral está muito ruim diante do povo.


Folha - Quem será o maior prejudicado na sua opinião, o PT, o governo federal, o presidente Lula ou os deputados?
Mendes - Os prejudicados são todos os envolvidos com as mazelas. Mas eu não creio que isso vá refletir muito na figura do presidente porque o Lula tem um apelo popular muito grande e o povo não dá muita bola para o problema de corrupção. Ele sabe que o governo de um modo geral é corrupto mesmo.


Folha - É possível se falar em faxina ética no Brasil?
Mendes - Nós precisamos urgente de uma faxina ética, essa nossa geração é muito irresponsável diante do comportamento individual e coletivo. É irresponsável por ser indiferente, cínica, não dar valor, ser muito do ''jeitinho''. Na nossa formação histórica nunca houve uma idéia deliberada, uma política de formação ética do povo. E isso agora está refletindo na realidade, o povo não tem compostura. Tudo isso cria um quadro bastante comprometedor do nosso caráter, muito prejudicial ao nosso conceito internacional. O povo brasileiro precisa tomar consciência de que ele tem uma responsabilidade grande diante das futuras gerações, formando uma coletividade mais honesta, mais sóbria, mais sólida.


Folha - Falta mobilização popular considerando a magnitude da crise?
Mendes - Falta, lamentavelmente falta. É difícil mobilizar as elites e o povo porque as instituições são muito estáticas, muito morosas. Veja por exemplo o caso da educação, que não evolui, fica numa rotina de 40 anos atrás. Precisamos de uma disciplina de ética mais objetiva, no sentido de fazer com que a criança perceba desde o começo que há valores a serem preservados.

Folha - Cassar mandatos serve de exemplo ou é apenas uma forma de fingir que algo foi feito? As práticas ilegais e imorais persistem...
Mendes - Isso aí é uma fisiologia que vai resultar em pouco efeito, porque muitos deles renunciam aos mandatos e depois voltam, se reelegem. Veja o que aconteceu com o Valdemar Costa Neto (presidente do PL e deputado que renunciou após acusações de envolvimento no esquema mensalão). Ele saiu para poder pensar na próxima eleição e preservar os direitos políticos. Ou seja, esse mecanismo não é autêntico, precisamos urgentemente de uma reforma política.

Folha - Reforma política em que moldes? O senhor acha que essa reforma que está sendo discutida no Congresso ajuda?
Mendes - Essa reforma que está sendo discutida não é boa. A idéia de financiar publicamente as campanhas não vai diminuir a corrupção. Não vai diminuir o dinheiro do caixa 2. Nos falta capacidade para escolher as melhores opções, isso tem acontecido desde o império... Também por causa da educação, o jovem tem ojeriza de estudar. É preciso maior participação do povo, com partidos políticos mais autênticos, mais programáticos e menos pragmáticos. A fidelidade partidária também é importante.

Folha - E o caso do caixa 2 em Londrina, investigado pela Polícia Federal?
Mendes - É a síndrome do combate, Deus ajude que isso possa refletir em benefícios mais duradouros, porque caixa 2 todo mundo sabe que em toda eleição tem. Não é privilégio do PT em Londrina. Essas investigações são muito boas e oportunas, mas é preciso que isso reflita em benefícios para o futuro, que se crie mecanismos de mais transparência nas eleições.

Folha - São possíveis mecanismos para coibir pelo menos parte de práticas triviais na política brasileira, como pagamento de propinas, caixa 2, tráfico de influência?

Mendes - A competência e o interesse dos tribunais eleitorais e dos juízes eleitorais de realmente fiscalizar e acompanhar o processo seria importante. O Judiciário precisa ser mais participativo. Eles são muito burocráticos. A imprensa tem um papel fundamental. Muito do que a gente vê é a imprensa que denuncia, então precisamos de uma imprensa mais investigativa. Eu espero que este momento (a crise) resulte em benefício para toda a coletividade e que a sociedade possa se beneficiar com essas denúncias, para que nós possamos lavar a alma do Brasil sem ferir as instituições e o processo democrático. Aprender com o erro.

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