País acompanha drama de Mário Covas
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terça-feira, 27 de fevereiro de 2001
Agência Estado De São Paulo 
O estado de saúde do governador licenciado de São Paulo, Mário Covas, de 70 anos, internado no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, piorou na madrugada de ontem e era extremamente grave até o fechamento desta edição. Seu médico particular, o infectologista David Uip, disse ontem que todas as medidas médicas estão sendo tomadas, mas admitiu que é o momento de maior risco para sua saúde. Ele se recusou, porém, a fazer qualquer prognóstico e disse que os médicos continuarão trabalhando até onde a dignidade mostre que seja o caminho.
A situação de saúde do governador começou a piorar na tarde de domingo e ele precisou ser internado no Incor à noite. Agravaram-se a infecção generalizada (que teve origem no abdome) e a trombose na perna direita (formação de coágulo que obstrui uma veia). Também foi diagnosticada obstrução intestinal, que contribuiu para o agravamento da infecção, por liberar bactérias e toxinas.
Além disso, o governador está com coagulação intravascular disseminada, altas taxas de açúcar no sangue, arritmia cardíaca e oscilação do nível de consciência, que varia entre a lucidez e o estado de torpor. O quadro clínico, segundo Uip, caminha para insuficiência múltipla de órgãos. Ele disse que a alimentação foi suspensa por causa da obstrução intestinal. Covas estava recebendo soro, mas não fora sedado e respirava sem auxílio de aparelhos.
O professor de hematologia da Universidade de São Paulo (USP) Dalton Chamone, que integra a equipe responsável pelo tratamento do governador, acredita que sua piora foi provocada pela proliferação do câncer no abdome a obstrução intestinal seria um sinal disso e não está diretamente ligada ao câncer na meninge, diagnosticado em janeiro. Há claros indícios de que ele proliferou, afirmou.
Uip garantiu que o caminho adotado refletirá o desejo do governador e a decisão da equipe. O médico explicou que, atendendo a pedido de Covas e da família, ele está num quarto no sexto andar e não foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), como seu quadro clínico recomendaria. No quarto, Covas pode ficar com a primeira-dama, Dona Lila, e os filhos Renata e Zuzinha.
De acordo com Chamone, a sucessão de problemas de saúde apresentada por Covas deixou os médicos sem saída terapêutica. O tratamento do câncer no abdome, que seria reiniciado há duas semanas com quimioterapia, teve de ser adiado por causa da arritmia cardíaca.
A rápida proliferação das células tumorais e a infecção formaram uma combinação explosiva. Tentando combater a infecção e as células tumorais, o organismo produz de forma excessiva substâncias que estimulam a coagulação do sangue. Essa reação facilita a formação de trombos (coágulos) e, num estado mais adiantado, a insuficiência múltipla dos órgãos. Quando o problema é provocado apenas por infecção, o uso de substâncias anticoagulantes dá bom resultado, disse Chamone.
Na segunda-feira, tão logo se chegou ao diagnóstico de coagulação intravascular disseminada, foi iniciado o tratamento com hepaverina a droga indicada nesses casos. A infecção, tratada com antibióticos, segundo Chamone, já dava sinais de retrocesso. Mas não podemos interferir no outro fator que provoca a coagulação, a destruição das células tumorais pelo organismo.
No principal boletim médico sobre o estado de saúde de Mário Covas, divulgado ontem pelo Instituto do Coração, os médicos admitiram a dificuldade de vencer. Evolui com piora o estado clínico geral do governador Mário Covas, internado no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (Incor-HC/FMUSP), desde o último domingo. No momento, o quadro clínico é caracterizado por obstrução intestinal, sepse, coagulação intravascular disseminada, com trombose venosa profunda. O paciente apresenta ainda descompensação do nível glicêmico, arritmia cardíaca e oscilação do nível de consciência. O governador permanece no quarto, com terapia medicamentosa e de suporte contínuos antimicrobianos, anticoagulantes e antiarrítmicos ministrados por via venosa.


