Pai e filho, a mesma alma, o mesmo ideal
São Paulo - Fisicamente, o engenheiro Ivo Herzog lembra um pouco o pai, principalmente pelos olhos e sobrancelhas; mas na alma, é uma perfeita repetição. Tinha 9 anos quando o pai foi assassinado sob tortura, em 1975; hoje, aos 39, confessa que não tem lembranças físicas muito nítidas dele. Mas quando fala de valores, se empolga e a lembrança do pai brota subitamente forte.
Ivo diz que, no pouco tempo em que conviveram, o pai Vladimir lhe legou uma ética xiita, radical. ''Aprendi que os fins não justificam os meios e que a coletividade está sempre acima do indivíduo'', afirma. Acha importante ter uma ideologia e se diz socialista. ''Se você acredita em alguma coisa, tem de lutar por ela e defender. Se vier alguma coisa em sentido contrário, você tem de debater'', observa. E adianta, com rigor democrático: ''É importante tornar pública a sua opinião.''
Ivo dá grande importância às eleições e não descarta a possibilidade de, um dia, ser candidato. Já tem até uma plataforma: ''O que acaba com desigualdade social é educação'', afirma. Os políticos que Ivo mais admira são Mário Covas, Franco Montoro e Ulysses Guimarães.
Ele tem sérias discordâncias com o PT por causa da política de oposição sistemática. ''Quanta coisa o Brasil não deixou de fazer por causa do PT!'', bate. A crítica se amplia a Lula: ''O Presidente tem de ser líder e Lula não exerce essa liderança, só pensa em viajar. Ele impôs ao Brasil um processo de monólogo, nem entrevista coletiva dá'', diz.
Ivo diz acatar a anistia que perdoou os assassinos de seu pai, mas acha que o crime deveria ser apurado em minúcias e os resultados, expostos a público. E tem uma noção precisa do que aconteceu. ''Ele foi obrigado a escrever aquela carta. Depois concluiu 'esse não sou eu' e rasgou a carta. Aí aconteceu a morte dele'', presume. Segundo ele, a morte do pai é um marco na abertura democrática. ''A partir daquele momento, a sociedade passou a manifestar a sua indignação de forma mais clara e intensa'', garante.
Pessoas que Ivo nem conhece perguntam se ele é ''filho do jornalista'', quando vêem o sobrenome. ''Para mim, é motivo de muito orgulho. Mas é um orgulho complicado, porque você fica feliz pelo pai que teve, mas o pai está morto'', arremata.(C.M.)





