Arquivo FolhaPaes de Andrade: ‘‘Derrota do governo é inevitável’’


O presidente do PMDB, deputado Paes de Andrade (CE), afirmou ontem que a maioria da bancada do partido na Câmara não comparecerá à sessão de votação da emenda da reeleição. ‘‘O quórum não será alcançado e a derrota do governo será inevitável’’, desafiou. Ele não fez previsões sobre o número de ausentes. Disse apenas que o presidente Fernando Henrique Cardoso está recebendo dados falsos e as lideranças do governo estão ‘‘vendendo ilusões’’ sobre as possibilidades de aprovação da emenda.
A sessão plenária, avalia Paes, deverá repetir o resultado da convenção do PMDB. ‘‘Os governistas diziam que iriam arrasar, mas acabaram perdendo de maneira desastrada.’’ Ao comentar a contabilidade dos coordenadores políticos do governo foi irônico. ‘‘Eles estão usando lentes de Pangloss e só vêem cor de rosa’’, disse referindo-se ao personagem excessivamente otimista do romance ‘‘Cândido’’, de Voltaire. ‘‘Deveriam tirá-las para ver em preto e branco a realidade’’.
Confiante da derrota da governo, Andrade repetiu um gesto do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, e fez o ‘‘v’’ da vitória ao deixar o Hotel Glória, no Rio, onde se encontrou com o ex-presidente Itamar Franco. Ele afirmou que as relações do PMDB com o governo não vão mudar, mas tropeçou ao falar do tamanho da oposição. ‘‘Estamos apoiando o presidente por pensar nos interesses do País, mas o PMDB tem um projeto de poder e vai apresentar um candidato próprio à Presidência da República’’.
A reunião Paes-Itamar, também contrário à reeleição, durou 45 minutos. Ao sair, o deputado cearense disse que a decisão tomada pela convenção nacional do PMDB - reeleição só depois da eleição das Mesas Diretoras da Câmara e Senado - será acatada. Ele não revelou o teor da conversa com Itamar. Disse apenas que o ex-presidente evitou falar da reeleição porque ‘‘está cumprindo missão diplomática’’. Voltou a convidar o ex-presidente para voltar ao PMDB. Segundo Paes, o ex-presidente tem
‘‘indiscutivelmente’’ todos os títulos para ser candidato a sucessão de Fernando Henrique, mas é ‘‘muito cedo’’ para falar sobre o assunto.
O presidente do PMDB garantiu que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), se comprometeu a acatar a decisão da convenção. Ele afirmou que Sarney, em conversa por telefone, negou ter se encontrado com o presidente Fernando Henrique Cardoso e acreditar na vitória da emenda da reeleição. ‘‘Nada é mais falso’’, disse, referindo-se a notícias publicadas.
Paes de Andrade passou o dia articulando a mobilização contra a emenda. Depois do encontro com Itamar voltou a Brasília de jatinho para uma reunião com os senadores peemedebistas José Sarney, Jáder Barbalho (PA) e Íris Rezende (GO). Ele advertiu que o deputado que não acatar a decisão da convenção ‘‘vai ficar numa posição muito desconfortável’’. Negou, porém, a possibilidade de punições. ‘‘Eles terão a resposta das bases nas urnas.’’
O voto dos deputados do PMDB na comissão especial que aprovou a reeleição - todos foram a favor - não se repetirá no plenário, disse. ‘‘Cada deputado do partido na comissão fez uma declaração de voto, dizendo que só participaria da votação depois da eleição das duas Mesas.’’

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