As mãos que abençoam são as mesmas que assinam decretos. As mesmas mãos já manusearam uma infinidade de cartas de baralho, enrolaram ‘baseados’ e seguraram microfones. O dono das mãos é o padre-prefeito Luiz Pereira (PSC), de Ivaiporã (170 quilômetros de Londrina). Padre Luizinho, como é conhecido, tem 45 anos, é padre há 12 e vive sua primeira experiência política. Além dele, o Paraná tem outro padre-prefeito - de Munhoz de Melo, Celso da Silva (PDT) -, quatro vices e um deputado federal, Roque Zimermann (PT).
Antes de ser padre, Luizinho foi viciado em jogo de baralho. ‘‘Joguei por mais de dez anos. Já ganhei e perdi muito. O jogo é pior que pinga, pior que droga’’, acredita. Na adolescência, ele também fumou uns ‘baseados’ (cigarros de maconha) e teve um grupo musical ‘‘The Evander’s’’. Desse passado que ele trocou pela Igreja, apesar de ter entrado e saído do seminário três vezes, Luizinho só guarda a música e o testemunho para levar jovens da cidade e região à igreja.
Filiado ao PSC há um ano, e pouco à vontade para discorrer sobre política - padre Luizinho fala mais e melhor sobre religião, especialmente sobre a Renovação Carismática, da qual faz parte -, ele assume que o sacerdócio é mais fácil que a tarefa política, e se diz assustado com números, decretos, burocracia administrativa e desemprego.
‘‘Não adianta esperar um milagre’’, avisa, com a voz calma de quem parece pregar uma lição. Ele argumenta que os problemas existem, a prefeitura espera solucioná-los, aos poucos, mas o grande drama é o desemprego. ‘‘E esse não é tão simples de ser solucionado’’, reconhece. Para ele, administrar tem sido ‘‘um parto’’. ‘‘É claro que nunca senti a dor de um parto, mas as mulheres falam que é muito grande. Por isso a comparação’’, justifica.
Na igreja, ele abençoa, prega e aconselha. Na prefeitura, é obrigado a dizer não, palavra que está incorporando agora ao seu vocabulário. ‘‘É preciso saber dizer não para o bem da coletividade’’, argumenta. Ele se refere principalmente às dezenas de pedidos de emprego. ‘‘Muitas vezes é preciso negar para bem administrar. Dói muito, mas já estou me acostumando’’, confessa.
Até o mês passado, ele acumulava as funções de padre e prefeito, mas como agora tem substituto, atua como uma espécie de padre-coringa. Quinta-feira passada, ele rezou missa na paróquia Santíssima Mãe de Deus, que parou para ouvi-lo.
Na política, ele conta que entrou para ‘‘ampliar o bem comum’’. Na campanha, seu partido coligou-se com o PFL e o PSDB, com apoio do ex-prefeito Melvis Muchiuti (PFL), atual assessor jurídico da prefeitura. As propostas de Luizinho são de continuidade, principalmente na área de diversificação agrícola. ‘‘Não fizemos promessas exageradas porque Deus tá vendo’’, brinca.
Ídolos políticos, ele não tem, mas uma foto em seu gabinete, ao lado da cruz, ‘denuncia’ algumas preferências: padre Luizinho aparece ao lado de um assessor do presidente da Assembléia Legislativa, Aníbal Khury (PTB). ‘‘Para mim, a inspiração é Jesus’’, garante.
Ele evita polêmica - prefere não comentar o documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que acusa o presidente Fernando Henrique Cardoso de corrupção e critica a ação do governo no campo social. Padre Luizinho parece preferir o consenso e diz estar trabalhando afinado com a Câmara para aprovação de projetos voltados à comunidade.
Ao secretariado e ao vice, Geomar Torres Pereira (PFL), ele dá ‘carta branca’ para agir. Até uma fofoca circulou pela cidade: a de que o prefeito não era o padre e sim o secretário de Administração, Gerson Ferro. ‘‘É maldade. Ele é democrático e nos dá bastante autonomia’’, explica Ferro, que foi secretário de Finanças na administração anterior. A tesoureira Maria Cristina Mareze diz que Luizinho ‘‘segura firme’’. ‘‘Não é fácil economizar, mas precisamos guardar dinheiro para garantir futuros projetos’’, confirma o prefeito.
No altar, ele se transforma. Com a batina, esquece a cadeira de administrador, fecha os olhos, canta, vibra ao falar em Deus, contagiando fiéis e visitantes. A igreja parece ser sua verdadeira casa, a menos de um quarteirão da prefeitura.

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