Os principais líderes dos partidos governistas avaliam que o pacote fiscal provocará um desgaste político imediato, mas consideram que até as eleições de 98 haverá tempo para o governo mostrar que as medidas estão corretas, evitando, assim, a perda de votos. Os líderes também avaliam que o presidente Fernando Henrique Cardoso terá um ganho adicional com o pacote: assumirá a posição de estadista, ao colocar em risco o seu projeto de reeleição para defender a estabilidade da economia.
‘‘Tem desgaste? Tem. Vai ter repercussão eleitoral? Vai. Paciência. O presidente vai assumir o bônus e o ônus. Adotar essas medidas a 11 meses das eleições demonstra a seriedade e a visão de estadista do presidente’’, disse o líder do PSDB na Câmara, Aécio Neves (MG). O líder tucano acrescentou que o governo adotou as medidas por responsabilidade e por pragmatismo: ‘‘Se não fizesse agora, colocaria em risco o Real. Então, vamos pagar o preço agora, e não depois das eleições, como ocorreu no Cruzado 2’’.
O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), afirmou estar confiante no sucesso das medidas e descartou a possibilidade de o governo sofrer prejuízos eleitorais. ‘‘Vai ser um bom remédio. Teremos resultado em poucos meses, e o povo vai compreender que é esse o caminho’’, disse ACM. Ele afirmou que os parlamentares que não apoiarem o pacote poderão ser ‘‘punidos’’ pelos eleitores.
O presidente nacional do PFL, deputado José Jorge (PE), foi mais reticente: ‘‘Se o governo conseguir recuperar a confiança no real, o resultado político será positivo. Se a inflação aumentar, o resultado será ruim. O governo terá ganhos se gerenciar bem o plano’’, disse.
Os partidos de oposição programaram para amanhã no Congresso um ato contra o pacote do ajuste fiscal de emergência anunciado pelo governo. Deverão participar os principais dirigentes oposicionistas, como o presidente nacional e o presidente de honra do PT, José Dirceu e Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do PDT, Leonel Brizola, além de senadores e deputados que combatem o governo. Do lado de fora do Congresso a Central Única dos Trabalhadores (CUT) fará um protesto contra as reformas.
O líder das oposições no Senado, José Eduardo Dutra (PT-SE), disse que o primeiro sinal ‘‘da falta de seriedade do governo’’, ao lançar o pacote, foi dado quando o presidente Fernando Henrique Cardoso se ‘‘esqueceu’’ de incluir entre as medidas o projeto de lei que cria o imposto sobre as grandes fortunas. ‘‘Por acaso o projeto é de autoria do então senador Fernando Henrique Cardoso’’, afirmou Dutra. O senador afirmou ainda que o corte de apenas 3% nos incentivos fiscais, em um total de R$ 17 bilhões, ‘‘é uma quantia ridícula’’.
O líder do PT na Câmara, José Machado (SP), anunciou para hoje uma reunião da bancada do partido para verificar a forma de combater o pacote a partir do Congresso. Para Machado, além da ausência do imposto sobre as grandes fortunas faltaram medidas tributáveis para promover a distribuição de renda. ‘‘Estas que foram anunciadas só concentram a renda’’, disse ele. O deputado José Maurício (PDT-RJ) disse que hoje ingressa com ação popular no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o pacote de medidas. ‘‘Só os trabalhadores vão pagar o pato’’, afirmou ele.

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