Um fim de semana de visita às bases eleitorais nos Estados combinado com a má condução da área econômica nas negociaçÕes do pacote fiscal com o Congresso produziu um curto-circuito no relacionamento entre o governo e seus aliados. Mais do que a resistência à aprovação de suas medidas econômicas, o que o governo terá de enfrentar agora é a ameaça de o pacote complicar ainda mais a já difícil votação das reformas administrativa e previdenciária.
As reclamações partem de todos os lados que se julgam atingidos, de alguma maneira, pelo pacote do governo. ‘‘Não consegui cinco minutos de paz com a minha família porque a toda hora aparecia alguém para reclamar do pacote’’, desabafou o deputado Mário Cavalazzi (PPB-SC), na volta de Florianópolis a Brasília. A reação foi tão grande que alguns líderes governistas, por prudência, decidiram adiar reuniões formais de bancada para discutir o pacote. Tudo para evitar que a cobrança das bases contamine a votação das reformas.
‘‘O pacote já é complicado e de difícil digestão’’, avaliou o líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), para completar: ‘‘Misturar isso com reforma administrativa é nitroglicerina pura’’. O líder do PMDB ainda se lembra das dificuldades dos aliados para aprovar a prorrogação do Fundo de Estabilização Fiscal (FEF). ‘‘Aquilo foi um horror’’, resumiu. Se na época os parlamentares sofreram com o corpo a corpo de prefeitos e vereadores, dessa vez a pressão começa dentro de casa. ‘‘Fica ruim com os amigos e com a família porque o governo não aceita alternativas; o que ele quer mesmo é reduzir o consumo no período de Natal’’.
A vida do governo ficou ainda mais complicada pela falta de habilidade política da equipe econômica na divulgação e negociação do pacote. Um erro do governo fez com que o único partido que fechara questão em favor de todas as medidas econômicas - o PSDB - passasse a fazer coro com os críticos da base governista. O deputado Arthur Virgílio Neto (AM), secretário-geral do PSDB, protestava ontem ruidosamente contra o tratamento que recebera do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Pedro Parente.
Na sexta-feira, Virgílio telefonou para o secretário pedindo informações sobre o pacote e, especificamente, sobre eventuais cortes de incentivos fiscais na Zona Franca de Manaus. Parente disse que os cortes poderiam ocorrer, mas não definiu data e ainda, segundo o deputado, se propôs a estudar essa decisão com especialistas da região. Virgílio acabou sendo surpreendido pelos jornais com a notícia da definição dos cortes de incentivos para a Zona Franca.
‘‘Eu me senti traído’’, reclamou. ‘‘Sempre estive pronto para defender todas as propostas do governo, mas acho que não confiaram em mim’’, disse Virgílio. ‘‘Ele podia perfeitamente ter me contado o que ia acontecer e não fez isso’’. Alguns deputados contestam o critério do corte linear dos incentivos utilizado pelo governo. O deputado Mendonça Filho (PFL-PE) admite até a necessidade do pacote. Mas cobra, na questão dos incentivos regionais, a mesma lógica que fez com que o governo optasse por aumentar o Imposto de Renda da classe média para preservar a população de baixa renda. ‘‘Na hora de cortar incentivos, o governo tem que levar em conta a renda dos estados para não penalizar os mais pobres’’, reclamou Mendonça.
Preocupados em diminuir a insatisfação dos aliados, líderes governistas arriscam agora o discurso de que a prioridade é evitar a volta da inflação.

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