Agência Estado
De Brasília
O depoimento do secretário nomeado de Desenvolvimento Urbano, Ovídio de Ângelis (foto), à comissão representativa do Congresso será hoje de manhã. Ele tentará convencer o Congresso de que não houve falta de ética na assinatura de convênios para Goiás - reduto eleitoral dele - no valor de R$ 32 milhões, dentro de um orçamento de R$ 49,6 milhões destinado para a Secretaria Especial de Políticas Regionais somente este ano.
O Palácio do Planalto vai acompanhar com atenção o depoimento. Colaboradores próximos ao presidente Fernando Henrique Cardoso afirmam que, embora a situação dele seja delicada, o sucesso do secretário no Congresso pode tornar viável sua permanência no governo.
Para se preservar do desgaste de uma convocação formal, De Ângelis procurou ontem pelo presidente da comissão representativa do Congresso, Geraldo Melo (PSDB-RN), e se ofereceu para esclarecer os convênios firmados pela secretaria durante os últimos dias de gestão. Em carta enviada a Melo, o secretário sugeriu que o encontro fosse realizado hoje, evitando a votação do requerimento para a convocação. ‘‘Se fôssemos votar o requerimento, o depoimento poderia ser protelado até por duas semanas’’, explicou Melo.
Calado, o secretário está se esforçando para que o episódio não lhe custe o cargo. Na tarde de anteontem, esteve com Fernando Henrique no Palácio do Planalto para explicar o processo de liberação das verbas e contestar as acusações do deputado petista Geraldo Magela. Já tivera uma conversa com o secretário-geral da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira, e enviara documento escrito com os argumentos para o ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente.
O governo vem tratando o assunto com cautela. Embora tenha recebido o episódio com desagrado, o Palácio do Planalto tem evitado fazer um julgamento do secretário, à espera de eventuais novos desdobramentos do fato. Satisfeito com as explicações do secretário, FHC prefere esperar pelo desfecho no Congresso e só deverá agir, exonerando De Ângelis, se houver forte pressão política para isso.
O governo deve repetir, se necessário, a mesma estratégia das demissões do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros e do ex-diretor-geral da Polícia Federal (PF) João Batista Campelo, que só deixaram o governo quando a pressão política tornou insustentável a manutenção deles. O risco de um massacre pelos parlamentares, entretanto, pode estar reduzido neste momento, uma vez que o Congresso ainda está em recesso parlamentar e a comissão representativa é composta por um número limitado de deputados e senadores.
Há uma semana, Magela, líder em exercício do PT na Câmara, acusou De Ângelis de ter liberado R$ 32 milhões para prefeituras goianas, num período de cinco dias, retirados de um orçamento de R$ 49,6 milhões. Ex-secretário especial de Políticas Regionais, ele foi remanejado pelo presidente para a nova secretaria, criada pelo governo para agradar ao PMDB.
Segundo levantamento apresentado por Magela, entre os dias 12 e 16, De Ângelis assinou 79 contratos com municípios de Goiás, entre o total de 135 convênios assinados com todo o País. Pela pesquisa, em abril, apenas R$ 1 milhão foi empenhado pela secretaria de De Ângelis; em maio, foram R$ 2,3 milhões; em junho, R$ 9 milhões, e, em julho, houve um salto para R$ 49,6 milhões.

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