Os sem-terra e os sem-juízo
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de abril de 2004
LUIZ GERALDO MAZZA 
O MST, inegavelmente o maior movimento político-social do Brasil, poderia nesses dias de mobilização (invasões intermináveis, bloqueio de estradas, presença nas ruas inclusive aqui em Curitiba), festejar o anunciado projeto-modelo de reforma agrária da Araupel, mas isso dificilmente acontecerá.
A sequência de erros cometida nesse caso é de tal ordem que, se tivesse sido planejada, talvez não chegasse à sublimidade da distorção. Houve resistência de procuradores do Incra não apenas por motivações jurídicas, mas também as de natureza técnica. Enquanto os delirantes do marketing faziam peças cromáticas sobre esse ''paraíso'' e anunciavam a iniciativa que faria a depuração de todos os descaminhos da reforma agrária brasileira, o governo se emaranhava numa autêntica e incontornável gambiarra de fatores que mostravam não apenas a inviabilidade, pelos altos custos do assentamento (cerca de R$ 80 mil por família), mas o erro primário cometido no fato de se pretender realizar tal experiência em áreas de preservação, de reflorestamento e florestas. A área, que originariamente pertencia ao grupo Ermírio de Moraes, era considerada a maior em densidade e extensão de araucária angustifólia.
QUESTÃO DOMINIAL Não bastasse tudo isso ainda se apurou que escrituralmente há outra falha de origem quanto ao domínio efetivo das propriedades situadas na faixa da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande e que deveriam ter sido devolvidas à União. A matéria é complicada e procuradores federais exigiram procedimentos e cautelas para que não se ampliasse a confusão. Todo esse material vai aparecer agora na CPI nacional que estuda a questão fundiária.
Aliás o Paraná é um dos maiores focos de tensões na questão dominial em função de numerosos e gigantescos ''grilos'' que ocupam hoje centenas de municípios modernos. Volta e meia aventureiros acionam essas questões e provocam ansiedade e desespero em proprietários. Há a áreas concedidas pelo Estado irregularmente por pertencerem à União e que eram dependentes de licenças especiais do Senado e que não foram observadas, como se dá em especial com essa que seria alvo do tal projeto modelo.
OS SEM JUÍZO Como se vê ao lado dos sem-terra, que agem agora para legitimar as novas e sucessivas invasões ao mesmo tempo em que celebram protestando contra o massacre de El Dorado de Carajás, há sempre os sem-juízo. Como aquele ex-presidente da Contag, então na presidência do Incra no governo Sarney, que declarou o município de Londrina de utilidade pública para fins de desapropriação. E os imprudentes que soltam foguetórios para anunciar a safra de soja da Fazenda Itamarati, transformada em assentamento, e cuja renda dividida pela totalidade das famílias foi inferior ao mínimo de ganho fixado pelo programa Fome Zero do próprio governo federal. Há mais sem-terra do que sem-juízo, mas esses, às vezes incluídos entre aqueles, são mais eficientes, sob o ponto de vista operacional e que ajudam a aquecer o cadinho demagógico.
BIZARRICE Se esse depoimento do doleiro Yussef for comprovado acabaremos tendo a explicação das razões pelas quais a Assembléia Legislativa criou num dia e desfez no outro a CPI da Copel-Sercomtel. Aquilo ficou como tatuagem de forte suspeição na manobra com claro objetivo de manter tudo em caixa preta.
Como os deputados seguem a tradição do oportunismo e da subserviência e ainda por cima confiam na amnésia do respeitável público, tudo se repete agora na CPI do Porto de Paranaguá em cima de ações que escandalizaram o Brasil e o mundo e que a monarquia não deseja ver esclarecidas.


