Quando começa o horário eleitoral gratuito na televisão, o segurança Cláudio Pereira desliga o televisor e vai rezar. Pertencente à religião muçulmana, ele ora três vezes por dia e não se importa em ficar de fora das propostas políticas veiculadas no programa, até porque o que os candidatos dizem na tevê não tem muito a ver com a sua realidade. Morador de São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba (RMC), ele é obrigado a assistir ao programa eleitoral dos candidatos da capital.
É assim também nas outras cidades metropolitanas onde concorrem 80 candidatos a prefeito e 2.500 a vereador. Como esses locais não possuem geradora de televisão - capaz de transmitir programação própria - eles contam apenas com a campanha de rua, os impressos e o horário eleitoral no rádio para apresentar suas propostas. Essa condição cria situações interessantes, como a da aposentada Mercedes Andrade, que mesmo morando na cidade de Pinhais não perde o programa eleitoral de Curitiba. ''Acho engraçado'', diz ela que já teria até candidato, caso fosse eleitora na capital.
Essa percepção da situação política curitibana por parte do eleitorado metropolitano acaba tendo influência nas disputas locais. Em Fazenda Rio Grande, onde existem 47.615 eleitores, o peso da eleição da capital é sentido pelos candidatos do município. Para Chico Santos, do PSDB, o bom desempenho do candidato Beto Richa (PSDB) em Curitiba pode ajudar na sua campanha. ''Um bom trabalho em um município influencia nos outros'', acredita. Do outro lado, o candidato Professor Leslie, do PT, vê como prejudicial a veiculação do programa eleitoral no município. ''Ainda mais na região metropolitana, onde muitas pessoas trabalham em Curitiba, elas ficam alienadas da situação da sua própria cidade'', diz. Para ele ''seria melhor se não passasse nada''.
Na opinião da cientista política Luciana Veiga a condição em que se encontram muitas das cidades da RMC - que não são nem tão pequenas a ponto de favorecer uma campanha informal e nem tão grandes a ponto de contar com uma emissora de televisão - é o ''pior dos mundos'' para uma disputa eleitoral. Como existe um custo cognitivo, um esforço intelectual para que o eleitor escolha seu candidato a prefeito e a vereador, a falta de um veículo de comunicação como a televisão tem que ser compensado de alguma forma.
Nesse cenário, ganha importância o papel dos cabos eleitorais e das lideranças locais, que acabam se tornando o principal canal de comunicação entre as propostas dos candidatos e a comunidade. É comum nesses municípios haverem ''minicomícios'', reuniões na casa dos eleitores onde são apresentados os candidatos. Foi assim que a aposentada Mercedes escolheu seu candidato a vereador. ''Dá pra ter uma boa avaliação, a gente chama os amigos para conhecer as propostas, as vezes em uma reunião dessas ele (o candidato) tira cinco votos'', conta.
Segundo Veiga, o contato físico com o candidato é vital em cidades de qualquer porte. Mas enquanto nos grandes centros esse tipo de abordagem geralmente serve para gerar imagens para a tevê, em cidades pequenas essa proximidade favorece a política clientelista, em que os eleitores encontram uma oportunidade de pedir benefícios em troca do voto.

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