O PT voltou a defender ontem a instalação de uma CPI no Congresso para apurar indícios de prática de caixa 2 na prestação de contas das campanhas do presidente Fernando Henrique (PSDB). O senador José Eduardo Dutra (PT-SE) desafiou o líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), a assinar o pedido de CPI junto com a oposição. Virgílio disse que não apoiaria a medida porque a CPI seria inócua. ‘‘Os candidatos e partidos não são obrigados a guardar documentos por mais de seis meses após a eleição’’, justificou. ‘‘Se o Lula disser que só gastou R$ 3 milhões (na campanha presidencial), eu não vou ter como provar o contrário’’.
O PSDB continua contestando a autenticidade dos documentos mostrados pela ‘‘Folha de S.Paulo’’. O jornal revelou, na edição de ontem, que o comitê de campanha de FHC em 94 deixou de declarar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelo menos R$ 8 milhões em doações. A ‘‘Folha de S.Paulo’’ já havia registrado omissões de mais de R$ 10 milhões na campanha da reeleição.
Virgílio voltou a criticar ‘‘a hipocrisia’’ nas prestações de contas e citou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que declarou ter gasto apenas R$ 31 mil em sua última campanha. O líder tucano solicitou, na semana passada, cópia das prestações de contas de todos os candidatos que concorreram com FHC em 94 e 98 para mostrar que eles também tinham caixa 2.
A oposição, que tinha cogitado da instalação de CPI na semana passada, chegou a recuar. Dutra disse ontem, entretanto, que Lula pode ser investigado. ‘‘Nós não temos medo das bravatas do Arthur Virgílio e queremos investigação criteriosa das contas de campanha. Ele (Virgílio) tenta distribuir a responsabilidade pelo caixa 2, fazendo uma jurisprudência da fraude, em que se todos os candidatos incorreram no erro, FHC não tem de explicar nada’’.
O secretário-geral do PSDB, deputado Márcio Fortes (RJ), rechaçou as novas revelações, usando a mesma justificativa que adotou com relação aos indícios apontados na eleição de 98. ‘‘Documento que não tem timbre, assinatura e autoria não existe’’, afirmou, referindo-se às planilhas eletrônicas apresentadas pelo jornal. Fortes declarou que ‘‘não há o que dizer’’. O deputado não participou da campanha de 94, mas supõe que não houve irregularidades na prestação de contas da campanha presidencial naquele ano porque seu partido ‘‘não é dado a ilegalidades’’.
O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, disse que não falaria sobre o assunto, mas fez uma observação a respeito da posição do ex-ministro José Eduardo Andrade Vieira, que sustenta que FHC acompanhava a movimentação financeira da campanha. ‘‘Se Andrade Vieira diz que sabia, ele é culpado’’, sentenciou. ‘‘É inacreditável que ele diga isso seis anos depois’’.
Ontem, o ex-ministro afirmou que não deu qualquer declaração nem assumiu posição a respeito do assunto. José Eduardo confirmou que prestou declaração, a convite, ao procurador Guilherme Schelb, de Brasília, na Procuradoria da República, em Londrina, na sexta-feira. ‘‘Quem está falando sem ter lido meu depoimento, está falando asneiras’’, disse o ex-ministro.
O presidente Fernando Henrique negou ontem, ainda na Cidade do Panamá, ter tido conhecimento da existência das planilhas. Ao ser questionado sobre as afirmações do ex-ministro José Eduardo, de que ele (FHC), como candidato, acompanhava de perto toda a movimentação financeira do comitê de campanha, o presidente disse apenas: ‘‘Isso eu não vi’’. (Colaborou Redação)

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