O discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso na cerimônia de posse dos ministros do PMDB, Íris Rezende (Justiça) e Eliseu Padilha (Transportes), entusiasmou os tucanos, motivou elogios de ministros e aliados do PFL e PMDB e irritou as oposições. Enquanto a cúpula do PSDB - antes incomodada com o silêncio do governo - festejava a resposta do chefe às críticas nos salões do Palácio do Planalto, líderes dos partidos de esquerda protestavam no Congresso contra ‘‘a ameaça das baionetas’’, citadas no discurso.
‘‘É o que a sociedade queria ouvir’’, disse o deputado José Aníbal (PSDB-SP), certo de que o presidente fez uma boa defesa do governo. ‘‘Esse é o discurso: endurecer com ternura’’, emendou o tucano Antônio Feijão (AP). O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Fernando Bezerra, considerou as declarações uma resposta à preocupação dos empresários com o atraso nas reformas e com as manifestações de rua e invasão de prédios. O ministro dos Assuntos Políticos, Luiz Carlos Santos, considerou as declarações uma defesa firme do estado de Direito, contra a baderna.
As esquerdas vêem uma ameaça na observação presidencial de que ‘‘pedras, paus e coquetéis molotov são menos poderosos que as baionetas’’. ‘‘O presidente deixou claro que vai enfrentar com baionetas os movimentos sociais e as oposições’’, disse o petista Marcelo Deda (SE). ‘‘O instrumento mais perigoso que usamos para nos defender dos golpes dos governistas no Congresso foram os apitos’’, completou. ‘‘A baioneta dele é sociológica’’, ironizou o deputado Arnaldo Faria de Sá (PPB-SP), ao ressaltar que um aumento de apenas R$ 8,00 no salário mínimo dispensa o uso de armas.
O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) lembrou que o discurso em favor da ordem sempre produziu grandes complicações no Brasil, mas não vê nenhuma possibilidade de Fernando Henrique imitar seu colega do Peru (Alberto Fujimori), que fechou o Congresso daquele país. ‘‘A fujimorização se deu em nome da defesa da ordem pública e do combate à corrupção e o episódio da compra de votos descredenciou o governo para falar em luta contra a corrupção’’, argumentou Miro.
‘‘Fernando Henrique foi hipócrita ao condenar a corrupção ao mesmo tempo em que pressiona o Congresso contra a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) encarregada de apurar as denúncias de compra de votos para aprovar a reeleição’’, atacou o líder do bloco das oposições na Câmara, Neiva Moreira (PDT-MA).
O líder do PFL, Inocêncio Oliveira (PE), confessou-se aliviado por ter lido nas entrelinhas do discurso que o governo não quer a CPI. ‘‘O presidente apenas convocou o Congresso a esgotar o tema, não disse que é contra a CPI’’, contestou o líder do PMDB no Senado, Jáder Barbalho (PA). ‘‘O PFL, que tem informações privilegiadas, pode ler nas entrelinhas, eu não’’, disse.
Nesse caso, porém, o líder na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), está mais para Inocêncio do que para Jáder Barbalho. ‘‘Foi um discurso corajoso, em que esclareceu que o episódio da compra de votos está agora afeito às instâncias que a comissão de sindicância indicou e é para elas que a sociedade deve se voltar’’, avaliou Geddel.
O discurso que o presidente leu na posse dos ministros estava pronto desde terça-feira à noite, quando ele se reuniu com alguns dirigentes do PSDB para avaliar o tom da fala que marcaria sua reaparição pública, após cinco dias fechado em Palácio. ‘‘Era o que ele havia preparado para o pronunciamento em cadeia de rádio e televisão que chegou a planejar’’, disse um tucano. ‘‘Antes da crise da compra de votos, já estava querendo dar uma entrevista longa, que seria transmitida ao vivo para todo o País’’, garantiu outro dirigente do PSDB.
Descartados o pronunciamento e a entrevista, o presidente Fernando Henrique preferiu a fórmula mais segura para mandar seu recado aos parceiros e adversários e uma satisfação à opinião pública. Os aliados aplaudiram com entusiasmo a exigência de uma apuração completa do caso da compra de votos e sua disposição de demitir funcionários do governo envolvidos no escândalo.
O presidente do PSDB, senador Teotônio Vilela (AL), acha que o presidente foi firme e claro na defesa da investigação e da tese de que a oposição queria montar um palanque em cima do episódio, e promete um segundo discurso, para breve. ‘‘O presidente só levou a conhecimento público a metade do que gostaria, porque esta fala terá dois volumes’’, disse o senador. Segundo ele, o próximo pronunciamento do presidente vai detalhar melhor os novos rumos do governo, que pretende virar a página. ‘‘Vamos encerrar a fase mais institucional, e começar outra, mas executiva’’, disse o senador.

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