Agência Estado
De Brasília
Os organizadores da Marcha dos 100 Mil comemoraram a manifestação como um sucesso em razão, entre outros motivos, de não ter havido incidentes significativos. Até o fim de outubro, está prevista a realização de praticamente uma manifestação de porte no País por semana, procurando associar a impopularidade do governo detectada em pesquisas de opinião aos partidos oposicionistas. Em outubro, deverá ser realizado o Dia Nacional de Protesto.
‘‘Conseguimos dar cara, voz e a nossa bandeira às pesquisas que mostram a impopularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso’’, afirmou o líder do PT na Câmara, José Genoino (SP). O próximo objetivo, segundo Genoino, é ampliar a base do PT, ‘‘que não pode mais se centrar apenas em sindicatos, mas agregar pequenos agricultores, comerciantes e empresários insatisfeitos e dispostos a radicalizar’’. O presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP), anunciou o calendário de pressões sobre o governo para as próximas semanas.
No próximo dia 7, o PT participará do Grito dos Excluídos, organizado pela Igreja Católica em todo o País. No dia 14, haverá a greve nacional dos metalúrgicos. No dia 21, os profissionais de saúde estarão em Brasília. Em 6 de outubro, haverá um movimento dos professores. Em seguida, chega à capital a Marcha dos Sem-Terra. Finalmente, a oposição promoverá, provavelmente em outubro, um ‘‘Dia Nacional de Protesto’’.
Para o líder do PDT na Câmara, Miro Teixeira (RJ) a oposição tem de precaver-se para que a pressão sobre o governo não seja usada pela base aliada com o objetivo de sair de uma crise política por uma transformação institucional.
O pedetista vê com com preocupação a instalação na Câmara de uma comissão especial para analisar uma emenda constitucional que adota o parlamentarismo. O deputado propõe que os próximos atos apresentem uma agenda concreta de mudanças na área econômica.
O presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, divulgou nota justificando a posição diferenciada do partido em relação ao comando da Marcha dos 100 Mil. A nota afirma que ‘‘o PDT considera a marcha o ponto de partida de um grande movimento que – apesar de todos os esforços do governo, da mídia e do conservadorismo em geral – irá congregar milhões de cidadãos que não se conformam em ver o Brasil ser arrastado à situação de uma colônia de exploração dos grupos internacionais’’.
A nota do PDT acrescenta que, embora o partido tenha apoiado a instalação de uma CPI para investigar a privatização da Telebrás, pede ainda a renúncia do presidente e de seu vice, Marco Maciel, e a convocação de eleições em 90 dias.
A ausência de ocorrências policiais preocupou mais os organizadores da marcha do que atingir ou não a meta de reunir 100 mil manifestantes. Logo pela manhã, o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, esteve reunido com a cúpula do partido na Câmara para discutir as providências com o objetivo de conter grupos radicais.


Vozes
‘‘Esta manifestação é uma vitória espetacular porque é a expressão popular contrária a uma situação política.’’
- Deputado federal Aloísio Mercandante (PT-SP)
‘‘A questão aqui não é numérica porque este ato marca o início de um processo originado pela insatisfação popular.’’
- Ex-prefeita e deputada federal Luiza Erundina (PSB)
‘‘Vesti esta fantasia de carrasco numa referência ao FHC; quem sabe chamo a atenção do povo e mudamos alguma coisa.’’
- Jefferson Mercadanti, de 26 anos, estoquista em São Paulo.
‘‘Se cuida, se cuida FHC, porque o povo vai derrubar você!’’
- Dos manifestantes, na Esplanada dos Ministérios
‘‘Acho muito difícil o presidente ser afastado porque tem uma sólida base de sustentação, mas, como a pressão foi grande, talvez mude alguma coisa; agora que já protestamos, vamos aproveitar para fazer um tour porque também faz parte, não é?’’
- Estudante de economia Marcelo de Lucca, de 21 anos, de Viçosa (MG)
‘‘O governo federal mostrou uma total incompreensão a um apelo popular ao tentar reduzir uma manifestação dessas a uma questão numérica; uma pessoa com fome é uma pessoa faminta e não apenas um número que pode ser absorvido pela média.’’
- Ex-governador do Distrito Federal Cristóvam Buarque
‘‘Sabe que não sei nada?...’’
- Lavrador Severino Francisco José Raposo, de 59 anos, de Unaí (MG)
‘‘Temos certeza de que quando concluirmos as reformas, o Brasil vai voltar a crescer.’’
- Deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), vice-líder do governo na Câmara
‘‘Foi um fiasco.’’
- Presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA)
‘‘O importante é que este governo que não tem interesse de modificar o seu rumo, possa tirar uma lição.’’
- Governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB)
‘‘O presidente Fernando Henrique Cardoso acha que a oposição se comportou muito bem.’’
- Deputado Arthur Virgílio Netto (PSDB-AM)
‘‘Isto aqui é apenas o começo. Daqui pra frente vamos fazer como o Corinthians: arrasar cada vez mais.’’
- Presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da SilvaPartidos de esquerda definem calendário de manifestações que terminará em outubro com o dia nacional de protesto
Antônio Scorza/France PressePOVO NAS RUASOs manifestantes, 130 mil, segundo os organizadores, protestaram contra o governo no DF: ameaça de mais pressão

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