Brasília - Senadores de partidos de oposição e da própria base governista querem investigar a conexão da família do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), com a construtora Holdenn Construções, Assessoria e Consultoria Ltda, cujo principal nicho de negócios é o setor elétrico, área em que o senador exerce influência. Reportagem publicada ontem no jornal O Estado de S.Paulo mostra que três dos dois apartamentos ocupados pela família na Alameda Franca, região dos Jardins, em São Paulo, estão em nome da empresa, antes batizada de Aracati Construções, Assessoria e Consultoria Ltda.
O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), afirma que seria ''simplório'' atribuir a uma coincidência a ligação da empreiteira com os imóveis. ''Tenho certeza que não é isso, mas não vou pré-julgar'', diz. ''O certo é que não deve pairar nenhuma dúvida sobre essa questão''. Para Guerra, os fatos em si ''são extremamente graves''.
O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador Demóstenes Torres (DEM-GO), é categórico ao defender que as ''evidências'' de troca de favores são motivo de sobra para instaurar uma investigação. ''Estão sobrando evidências e não dá para desconhecer'', alegou. ''Quantas denúncias mais ele aguenta?'', questionou. Pela avaliação do senador de oposição, os fatos divulgados até agora pela imprensa, como abuso de poder, nepotismo e a suspeita de corrupção, fragilizaram não apenas o presidente do Senado, mas também a instituição e os demais parlamentares.
O senador Walter Pereira (PMDB-MS), da base governista, disse esperar que Sarney dê as explicações sobre a compra ou o uso dos apartamentos em São Paulo. O senador lembrou que Sarney, como presidente do Senado, tem verba de representação para se hospedar em hotéis em São Paulo. ''Por que ele preferiu o apartamento? Isso precisa ser esclarecido. É o ônus de quem exerce o mandato popular. Vale para Sarney, para mim e para todos os que foram eleitos. Todo homem público tem o dever de prestar contas no que envolve suas ações'', disse Pereira.
O líder do DEM, senador José Agripino (RN), considerou que a ligação de Sarney com a empreiteira no caso dos apartamentos agrava ainda mais a situação do presidente do Senado. ''É uma sequência inominável de denúncias gravíssimas'', disse. O líder de oposição afirmou que a abertura de processo contra Sarney no Conselho de Ética do Senado depende dos votos governistas. ''Vamos ver se serão sensibilizados pelos fatos ou pelos argumentos de Lula'', disse.
O senador Renato Casagrande (PSB-ES), que integra partido governista, afirma não ter dúvida que o ''grande equívoco'' do Senado tem sido o de impedir as investigações de episódios relacionados ao presidente da Casa. Segundo ele, a estratégia da tropa de choque tem dado resultado oposto ao esperado. ''E a cada vez que se abre mão da investigação, o presidente Sarney fica numa posição de fragilidade, porque não tem como argumentar sua inocência'', afirma. ''O ideal seria que essas suspeitas e essas dúvidas pudessem ser investigadas naturalmente''.

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