Brasília - Os articuladores do governo no Congresso cochilaram ontem nas negociações para aprovar o salário mínimo de R$ 260, impondo duas derrotas ao Palácio do Planalto nesse assunto. Primeiro, os líderes do governo foram surpreendidos com a manobra da oposição, apoiada por dissidentes do PT e por aliados do PMDB, do PV e do PPS, que conseguiu instalar pela manhã uma comissão mista e indicar o deputado Rodrigo Maia (PFL-RJ) para relatar a medida provisória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fixa o mínimo em R$ 260. O presidente da comissão será o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), também da oposição.
Praticamente ao mesmo tempo, a Comissão de Seguridade Social da Câmara aprovou a convocação dos ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e do Planejamento, Guido Mantega, para explicar o valor do novo mínimo. Como é convocação, os dois ministros são obrigados a ir ao Congresso. No início da noite de ontem, os aliados tentavam reverter a criação da comissão mista para analisar o mínimo. O deputado Carlos Zarattini (PT-SP) fez uma questão de ordem, que será analisada pelo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), alegando irregularidades regimentais na instalação da comissão mista.
''Até agora não entendi o que aconteceu. Mas acho que o cochilo maior foi da liderança do governo no Congresso. Essa comissão não existe e o relator não vai ser do PFL. O relator vai ser do PT'', afirmou o líder do PT na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP). ''Estamos até agora tentando entender o que aconteceu'', reforçou o líder do governo na Câmara, professor Luizinho (PT-SP). ''Fomos atropelados pela montagem da comissão mista'', admitiu o presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT-SP). ''Quem acabou fragilizando o governo foi o PT no Senado'', acusou o vice-líder do governo na Câmara, Beto Albuquerque (PSB-RS).
A comissão mista integrada por 13 deputados e 13 senadores foi instalada ontem pela manhã com a presença do senador Paulo Paim (PT-RS), um dos petistas mais decepcionados com a fixação do mínimo em R$ 260. A líder do PT no Senado, Ideli Salvati (SC), explicou que concordou em indicar Paim porque esperava que a MP fosse votada direto no plenário, sem ser analisada pela comissão mista.
A Constituição estabelece que, ao chegar ao Congresso, uma medida provisória tem de, primeiro, ser analisada por uma comissão mista para depois ser votada separadamente no plenário da Câmara e do Senado.
Apesar da determinação constitucional, a comissão mista nunca se reúne e a discussão acaba sendo feita diretamente nos plenários das duas casas. Daí a surpresa do governo com a instalação e escolha de Rodrigo Maia como relator e do senado Tasso Jereissati (PSDB-CE) como presidente da comissão mista.

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