Cerca de 500 manifestantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), partidos de esquerda e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) conseguiram passar ontem pelo esquema de segurança que isolara as ruas próximas à Escola Senador João de Medeiros Calmon, no Parque das Gaivotas, em Vila Velha (ES), onde foi inaugurado o ano letivo nacional pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, e chegaram perto do palanque, separados do tucano apenas por um muro. Houve tensão no palco, onde estavam Fernando Henrique e as autoridades
quando começaram as vaias e as bandeiras e faixas dos manifestantes foram empunhadas.
Um grupo de estudantes, mais ousado, conseguira entrar no pátio e, a cada manifestação dos políticos, agitava uma bandeira negra e vaiava ainda mais alto. Algumas pedras foram atiradas da rua sobre o telhado de metal da quadra de esportes, provocando estardalhaço. O presidente estava tenso.
Fernando Henrique só pareceu se descontrair quando começou a discursar, anunciado por um locutor, que falava em tom de programa de auditório, como ‘‘nosso grande presidente’’. ‘‘Vamos aplaudí-lo, que ele merece!’’ Uma queima de fogos, num prédio em construção localizado alguns metros atrás do ponto onde estava o palanque, foi tão intensa que abafou o início do discurso do presidente.
A bandeira negra acabou recolhida por seguranças. O mesmo destino teve a bandeira da CUT. Avisado por um segurança de que não poderia entrar no local com o mastro, o comerciário Maurício Nunes jogou-o fora e tentou entrar usando a bandeira como capa. Não adiantou: o estandarte acabou apreendido. ‘‘Vou sair porque estão me ameaçando’’, afirmou Nunes, depois de dizer que o presidente ‘‘precisa pensar no povo, não só em embelezamento’’ de obras. Alguns manifestantes gritavam a palavra ‘‘emprego’’, outros seguravam alegorias que imitavam a capa de uma carteria de trabalho. Um manifestante foi preso e outras faixas foram apreendidas dentro do pátio, antes de ser abertas.
Durante os discursos, o potente sistema de som não conseguiu abafar totalmente as palavras-de-ordem dos manifestantes. Foram jogados panfletos com ataques aos governos federal e estadual. ‘‘FHC/FMI e Zé Ignácio mentem para o povo, dizendo que são amigos da população’’, dizia o texto. ‘‘A quem eles pensam que estão enganando?’’ Os manifestantes jogaram, por cima do muro, balões coloridos, que causaram grande algazarra entre as crianças levadas para a festa. Meninos e meninas corriam e gritavam durante a solenidade, estourando as bolas e atrapalhando os discursos.
Encerrada a cerimônia, os manifestantes concentraram-se junto ao portão da escola que dá acesso à Rua João Valter dos Santos. Quem saía era xingado de ‘‘puxa-saco’’ e ‘‘baba-ovo’’. ‘‘Eles (os seguranças) bloquearam a passagem dos nossos carros, mas negociamos e viemos a p钒, contou um dos líderes do protesto, o presidente do PT de Vitória, Eliezer Tavares. A manifestação foi promovida pelo PT, PC do B, PMN, PSTU, CUT, sindicatos e MST. Participaram do ato o ex-governador e deputado federal Max Mauro (PTB), o deputado federal João Coser (PT), os estaduais Max Filho (PTB) e Cláudio Vereza (PT) e outros políticos oposicionistas.

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