Para a cientista política Maria Celina D’Araújo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), as cassações e punições depois do golpe de 1964 abriram cargos e espaços políticos para os oportunistas de sempre. ‘‘Havia também, é claro, a convicção anticomunista de grupos civis reacionários, que endossavam as práticas arbitrárias dos militares’’, afirma. ‘‘A ditadura não acontece numa tábula rasa’’.
A pesquisadora afirma também que, longe de ser uma fatalidade imposta pela desordem nas ruas, como alegavam seus autores, o Ato Institucional número 5 foi uma escolha - a opção preferencial dentro do projeto de ‘‘consertar’’ o País, dos quais os militares eram os fiéis e únicos depositários. Esse projeto não prescindiu, porém, de um expressivo apoio civil, acrescenta Celina, uma das autoras do livro ‘‘Ernesto Geisel’’ - a maior entrevista concedida pelo ex-presidente, e uma especialista em ciclos militares. ‘‘O campo para essa concepção não era hostil, porque uma parcela da sociedade, os grupos mais poderosos, também acreditavam nessa superioridade moral dos militares’’, aponta ela.
Ou seja, o regime de 1964 era militar, mas exercido com o consentimento civil de importantes segmentos sociais - representados, na histórica reunião do Conselho de Segurança Nacional que aprovou o AI-5, pelos ministros da Justiça, Gama e Silva, da Fazenda, Delfim Netto, das Relações Exteriores, Magalhães Pinto, da Educação, Tarso Dutra, da Agricultura, Ivo Arzua, da Saúde, Leonel Miranda, do Planejamento, Hélio Beltrão, da Indústria e Comércio, Macedo Soares, pelo chefe do Gabinete Civil, Rondon Pacheco e pelo vice-presidente Pedro Aleixo. Vários deles eram parlamentares da Arena e oriundos da velha UDN.
Para a pesquisadora, esse é um dado importante no quadro político da época. O AI-5, de uma certa forma, foi o acerto final de contas entre a UDN e o PSD. ‘‘A UDN apoiou oficialmente o golpe e, com os militares, chegava ao poder, já que, de 1945 até 1964, havia praticamente uma coalizão PSD-PTB’’, argumenta. ‘‘Os atos excepcionais se prestaram a que os udenistas tirassem a oposição de campo’’.
O que a parcela civil talvez não previsse era que o processo de fechamento fosse escapar tão totalmente do seu controle. ‘‘Nós, civis, queríamos salvar a ordem constitucional, porque sabíamos que o presidente Costa e Silva restauraria os poderes institucionais em breve’’, defende o ex-ministro Rondon Pacheco. ‘‘Mas tudo se deteriorou com a hipertrofia do arbítrio’’.
Ele conta que, na reunião do Conselho de Segurança Nacional, Costa e Silva garantiu ao vice-presidente Pedro Aleixo, único a votar contra o ato, que as medidas seriam utilizadas por ele de forma cuidadosa. ‘‘Quanto ao senhor, presidente, estou tranquilo’’, respondeu Aleixo. ‘‘O que eu temo é o arbítrio do guarda da esquina’’.
Celina argumenta que, em todo o processo ditatorial, a radicalização torna-se antropofágica - os aliados de ontem são devorados pelo núcleo que tenta se consolidar no poder. No caso do AI-5, os militares viveram, na verdade, uma autofagia -o ato acirrou as contradições dentro das Forças Armadas a tal ponto que, em 1969, no processo de escolha do sucessor de Costa e Silva, uma consulta nos quartéis consolidou a divisão entre o candidato da Junta Militar, o general Emílio Garrastazu Médici, e o preferido das tropas, o general Afonso Albuquerque Lima.

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