Oportunista teve espaço com cassações
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de dezembro de 1998
Eliane Azevedo Agência Estado 
Para a cientista política Maria Celina DAraújo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), as cassações e punições depois do golpe de 1964 abriram cargos e espaços políticos para os oportunistas de sempre. Havia também, é claro, a convicção anticomunista de grupos civis reacionários, que endossavam as práticas arbitrárias dos militares, afirma. A ditadura não acontece numa tábula rasa.
A pesquisadora afirma também que, longe de ser uma fatalidade imposta pela desordem nas ruas, como alegavam seus autores, o Ato Institucional número 5 foi uma escolha - a opção preferencial dentro do projeto de consertar o País, dos quais os militares eram os fiéis e únicos depositários. Esse projeto não prescindiu, porém, de um expressivo apoio civil, acrescenta Celina, uma das autoras do livro Ernesto Geisel - a maior entrevista concedida pelo ex-presidente, e uma especialista em ciclos militares. O campo para essa concepção não era hostil, porque uma parcela da sociedade, os grupos mais poderosos, também acreditavam nessa superioridade moral dos militares, aponta ela.
Ou seja, o regime de 1964 era militar, mas exercido com o consentimento civil de importantes segmentos sociais - representados, na histórica reunião do Conselho de Segurança Nacional que aprovou o AI-5, pelos ministros da Justiça, Gama e Silva, da Fazenda, Delfim Netto, das Relações Exteriores, Magalhães Pinto, da Educação, Tarso Dutra, da Agricultura, Ivo Arzua, da Saúde, Leonel Miranda, do Planejamento, Hélio Beltrão, da Indústria e Comércio, Macedo Soares, pelo chefe do Gabinete Civil, Rondon Pacheco e pelo vice-presidente Pedro Aleixo. Vários deles eram parlamentares da Arena e oriundos da velha UDN.
Para a pesquisadora, esse é um dado importante no quadro político da época. O AI-5, de uma certa forma, foi o acerto final de contas entre a UDN e o PSD. A UDN apoiou oficialmente o golpe e, com os militares, chegava ao poder, já que, de 1945 até 1964, havia praticamente uma coalizão PSD-PTB, argumenta. Os atos excepcionais se prestaram a que os udenistas tirassem a oposição de campo.
O que a parcela civil talvez não previsse era que o processo de fechamento fosse escapar tão totalmente do seu controle. Nós, civis, queríamos salvar a ordem constitucional, porque sabíamos que o presidente Costa e Silva restauraria os poderes institucionais em breve, defende o ex-ministro Rondon Pacheco. Mas tudo se deteriorou com a hipertrofia do arbítrio.
Ele conta que, na reunião do Conselho de Segurança Nacional, Costa e Silva garantiu ao vice-presidente Pedro Aleixo, único a votar contra o ato, que as medidas seriam utilizadas por ele de forma cuidadosa. Quanto ao senhor, presidente, estou tranquilo, respondeu Aleixo. O que eu temo é o arbítrio do guarda da esquina.
Celina argumenta que, em todo o processo ditatorial, a radicalização torna-se antropofágica - os aliados de ontem são devorados pelo núcleo que tenta se consolidar no poder. No caso do AI-5, os militares viveram, na verdade, uma autofagia -o ato acirrou as contradições dentro das Forças Armadas a tal ponto que, em 1969, no processo de escolha do sucessor de Costa e Silva, uma consulta nos quartéis consolidou a divisão entre o candidato da Junta Militar, o general Emílio Garrastazu Médici, e o preferido das tropas, o general Afonso Albuquerque Lima.


