Operação Vampiro vê prova de mensalão
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de setembro de 2006
Folhapress 
Ao investigar o esquema montado por lobistas e servidores para fraudar licitações de aquisição de medicamentos no Ministério da Saúde - a chamada Operação Vampiro -, a Polícia Federal descobriu mais evidências da existência de um esquema de cooptação de deputados federais para a base aliada do governo Lula em 2004.
Relatórios da PF mostram que, em fevereiro de 2004, conforme conversas gravadas com autorização judicial, o deputado federal José Janene (PP-PR), ex-líder do partido, teria buscado a ajuda dos lobistas Laerte Correa Jr., Eduardo Pedrosa e Frederico Coelho Neto, conhecido como Lilico e irmão do deputado Luiz Antônio Fleury (PTB-SP), para supostamente atrair ao menos dois deputados à bancada do PP em um prazo de três dias.
Segundo os relatórios da PF, eles falam de forma cifrada. Pelas investigações, o termo partido vira ''condomínio'', e deputado é tratado por ''inquilino'' ou ''carro'' para encobrir negociações, que chegariam a R$ 150 mil, além de ''prestações mensais'', oferta supostamente patrocinada por Janene.
Em 12 fevereiro, o lobista Correa Jr. aborda o assunto com Lilico. Durante o diálogo, após Correa introduzir o tema, Janene entra na conversa e pergunta a Lilico: ''Não tem nenhum de estoque, brimo?''.
Pelo diálogo, o deputado nem precisava ficar definitivamente no partido: ''Mesmo que o cara (deputado) não queira ficar em definitivo, mas na semana que vem o cara pode sair, não tem problema (...). Dá um acerto bom''. Naquela data, o PP estava a três dias de um prazo importante. Em 15 de fevereiro, a Câmara fecharia a contabilidade relativa às bancadas partidárias, número decisivo para a legenda garantir maior participação e comando em 12 comissões temáticas da Casa.
Segundo banco de dados da Câmara, entre os dias 10 e 15 daquele mês, o PP passou de 50 para 53 deputados. Mas em nenhum momento a investigação da PF aponta o nome dos deputados que trocaram de partido.
Em 2002, o PP (à época PPB), elegeu 49 deputados. Na posse, em fevereiro de 2003, estava com 43 integrantes na Câmara. Iniciou 2004 com dez deputados a mais. Ainda em 12 de fevereiro, Janene retoma o assunto com Pedrosa. O retorno da ligação ocorre durante o almoço. Pedrosa tenta cifrar a conversa, segundo a PF, mudando o termo deputado por carro.
''...Seu carro. Quanto você quer no seu carro?'', pergunta o lobista. O deputado diz que ''precisa dar uma olhada'' e questiona se Pedrosa tem uma avaliação. Em seguida, o lobista responde: ''Eu não... deixei de mexer com carro há um tempinho, né? Que estou aqui com um comprador (deputado federal) e ele tá querendo saber... quanto você quer que ele... vê se ele anima comprar''. Janene responde: ''É... um cinco zero (R$ 150.000). (...) Depois as prestações mensais, né?''.
Processos - Janene é o único deputado acusado no escândalo do mensalão que até agora não foi julgado pela Câmara. Seu processo de cassação só deve ser analisado no plenário depois das eleições. Ele é acusado de receber cerca de R$ 4 milhões do publicitário Marcos Valério de Souza, apontado como operador do mensalão.
As denúncias envolvendo o escândalo do mensalão estão sendo apuradas pela PF em cinco inquéritos. Um trata da compra de votos, o segundo investiga um suposto caixa dois em campanha de tucanos em Minas em 1998 e outros três apuram irregularidades nos Correios, no IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) e em Furnas.


