Curitiba – O ex-diretor da Área Internacional da Petrobras Nestor Cuñat Cerveró, que já é réu em ação penal que tramita na Justiça Federal do Paraná sobre corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa, chegou ontem, por volta das 9 horas, na sede da Superintendência da Polícia Federal (PF), no bairro Santa Cândida, em Curitiba. Ele foi preso preventivamente por volta das 0h30 de quarta-feira ao desembarcar no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, vindo da Inglaterra, onde estava desde dezembro.
O pedido de prisão foi feito pelos procuradores da força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) que atuam na Operação Lava Jato, ao constatarem fortes indícios de que Cerveró continua a praticar crimes, como a ocultação de bens e proveito do crime no exterior, além da transferência de dinheiro e imóveis para familiares. O MPF diz que há evidências de que ele tenta frustrar penalidades futuras. Além da prisão, foram feitas buscas e apreensões em pelo menos quatro apartamentos de Cerveró e de seus familiares. Os mandados de prisão e busca e apreensão foram autorizados pelo juiz federal Marcos Josegrei da Silva, que estava no plantão da Justiça.
"Nestor Cerveró vem tentando blindar seu patrimônio capaz de ser, a curto prazo, rastreado no País, transferindo-o a pessoas de sua confiança. Isso, evidentemente, sem falar nos valores que provavelmente mantém em depósito em contas offshore fora do País que ainda não foram possíveis de serem identificadas e rastreadas´´, diz trecho do pedido do MPF.
De acordo com informações fornecidas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão ligado ao Ministério da Fazenda, logo após o recebimento da denúncia e durante o recesso forense, o ex-diretor solicitou o resgate de R$ 463.763,00 de seu plano de Previdência Privada que seria aplicado em nome de sua filha, mesmo considerando que com tal operação haveria uma perda de mais de 20% da aplicação financeira (aproximadamente R$ 100 mil). O ex-diretor também transferiu recentemente quatro apartamentos adquiridos com recursos de origem duvidosa, em valores nitidamente subfaturados. Conforme os procuradores, há evidências de que os imóveis valem mais de R$ 7 milhões, sendo que a operação foi declarada por apenas R$ 1,2 milhão (um apartamento no valor de R$ 160 mil, dois no valor de R$ 200 mil e um no valor de R$ 650 mil, todos localizados no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro).
Para o MPF, a custódia cautelar do ex-diretor da Petrobras é necessária para resguardar as ordens pública e econômica, diante da dimensão dos crimes e de sua continuidade até o presente momento. "As ações levadas a cabo, atualmente, por Cerveró indicam, a um só tempo, disposição clara de não se sujeitar à lei penal na medida em que pretende evitar uma eventual apreensão de seu patrimônio e valores disponíveis em conta no Brasil, bem assim reiteração criminosa, uma vez que persevera na prática de ocultar e dissimular bens e direitos que lhe pertence."
O juiz que decretou a prisão de Cerveró requisitou à PF para que "instaure uma investigação sobre os fatos noticiados na decretação da prisão, especialmente os atos de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial que vêm sendo praticados nos últimos meses, até esta data".

DEFESA
Cerveró fez exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba por volta das 11h de ontem e retornou em seguida para a carceragem da PF. Segundo o advogado Edson Ribeiro, que defende Cerveró, o depoimento ocorrerá hoje, às 9h, na Superintendência da PF. "Meu cliente sempre colaborou com as investigações da Lava Jato e nunca foi chamado para prestar esclarecimentos, tanto na PF quanto no MPF, portanto, esta prisão é arbitrária. Vai permanecer em silêncio enquanto eu não tiver conhecimento de todas as provas levantadas contra ele´´, ressaltou. Segundo o defensor, não houve nenhuma ilegalidade na movimentação financeira realizada por Cerveró. O advogado reforçou que os argumentos utilizados para o pedido de prisão preventiva não passam de "ilações do MPF que levaram o juiz de plantão a erro, juiz este que não tem conhecimento da totalidade de fatos".
O defensor ainda fez questão de lembrar que a presidente da Petrobras, Graça Foster, também realizou movimentações imobiliárias em um período em que não havia qualquer restrição, seja administrativa ou judicial. "Essa transferência dos imóveis foi uma antecipação de herança, foram adquiridos com fruto do trabalho dele. Qualquer um pode movimentar o seu patrimônio, é uma atitude normal de ambos (Cerveró e Foster). O que não posso compreender é por que para Nestor é crime e para Graça não é crime. Se não é crime, não é para os dois não só para um", disse.
O advogado ressaltou ainda que informou da viagem de Cerveró para a Inglaterra ao MPF e à PF do Rio. "É uma questão que competência que será discutida mais a frente. Se existiu algum crime, ele foi cometido na Petrobras, no Rio. Por isso, a competência seria da Justiça do Rio. Não consigo entender esta competência da Justiça do Paraná, se existe um crime jamais ocorreu aqui", afirmou.
Souza afirmou que deve entrar hoje com pedido de habeas corpus no Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região (TRF4).

CELAS
Segundo apurou a FOLHA, Cerveró está preso na mesma ala em que se encontram o doleiro Alberto Youssef e o lobista Fernando Antônio Falcão Soares, o "Baiano". Entretanto, eles estão em celas separadas. A carceragem da PF é dividida em duas alas, com três celas cada. Na outra ala estão detidos os onze executivos das empreiteiras OAS, Camargo Corrêa, Engevix Engenharia, UTC, Mendes Júnior e Galvão Engenharia.

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