Oficiais criticam indenização para ex-soldados
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segunda-feira, 02 de maio de 2005
Tânia Monteiro e Leonencio Nossa<br> Agência Estado 
Brasília - Causou estranheza e repúdio entre oficiais-generais do Exército da ativa e da reserva a proposta de ex-soldados que combateram no Araguaia pedir indenização da União, para que sejam tratados como os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), enviados à Segunda Guerra Mundial. Na opinião dos oficiais-generais consultados pela reportagem, essas ''pessoas'' se sentem incentivadas a dar entrada em ações deste tipo na Justiça exatamente porque a concessão de indenizações se transformou ''na farra do boi'' e uma ''verdadeira bagunça'' já que pagamentos milionários estão sendo feitos para pessoas de esquerda, segundo eles.
Desde o início do processo de reparação aos perseguidos pelo governo militar, a cúpula das Forças Armadas foi contra as indenizações. No caso dos soldados e outros militares que participaram do combate à guerrilha, os oficiais-generais consideram ''um absurdo'' eles pretenderem algum tipo de indenização, por considerar que eles estavam ''em combate, cumprindo missão''.
No Ministério da Justiça, a avaliação é de que esses ex-soldados não têm direito a indenização porque a lei é clara ao dizer que ela é devida a quem foi perseguido pelo regime militar e teve prejuízos financeiros com isso. Por isso mesmo, os ex-soldados que atuaram nas operações de combate aos guerrilheiros do PC do B nas matas do Sul do Pará, nos anos 70, vão recorrer à Justiça Comum para tentar garantir indenização por danos físicos e psicológicos.
Trinta anos depois do fim dos combates, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça só indenizou famílias de militantes comunistas mortos. Moradores da região onde ocorreu a guerrilha e militares não receberam reparações financeiras.
No ano passado, a comissão recusou pedido de indenização feito por 15 ex-soldados, sob argumento de que eles não sofreram perseguição política. Um grupo de 80 ex-militares está coletando documentos para provar que sofreram perdas no Araguaia. É o caso do desempregado Raimundo Antônio Melo, de 51 anos, que atuou na região em 1974. ''Até hoje enfrento problemas à noite, tenho pesadelos'', conta. Ao deixar os combates, Raimundo foi dispensado pelo Exército mesmo ferido e doente. ''Não quero indenização milionária, quero apenas a reforma.''
Raimundo diz que ele e seus amigos do 52º Batalhão de Infantaria de Selva de Marabá foram deslocados para Xambioá e São Geraldo, palcos da guerrilha, sem serem informados das operações. ''Muitos perderam pernas, braços e a capacidade de ouvir'', afirma. ''O Exército não gosta de falar no assunto pois sabe que o número de moradores da região mortos supera o de guerrilheiros'', completa.
O grupo Tortura Nunca Mais estima que 61 comunistas morreram. As Forças Armadas nunca revelaram o número de baixas militares. Também não foi divulgado o total de moradores mortos durante os combates, que ocorreram de janeiro de 1972 a janeiro de 1975.
A história da Guerrilha do Araguaia está viva na memória dos que estiveram na selva amazônica no início dos anos 70. Em entrevista ao GRUPO ESTADO, em setembro do ano passado, o ex-soldado Ernane da Silva defendeu a indenização e relatou que foi obrigado, pelos superiores, a atuar como carcereiros do próprio pai, o agricultor Sandoval da Silva, torturado pelos militares. Ernane também vai entrar na Justiça para pedir indenização.
A polícia do Pará isolou ontem o prédio do antigo Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp) de Marabá, que está em reforma, depois que pedreiros encontraram um túnel com canos de armas, supostamente da época da guerrilha. O prédio, que está sendo adaptado para servir de maternidade, era usado pelo Exército como enfermaria. Para lá eram levados guerrilheiros e moradores feridos em combates. Um dos pedreiros revelou que a ''catinga'' no local era intensa.


