Odebrechet tinha departamento só para pagar propina
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terça-feira, 22 de março de 2016
Adriana De Cunto<br>Reportagem Local 
Curitiba A Odebrecht, uma das maiores construtoras do Brasil, tinha um departamento estruturado só para pagamento de propinas. A empresa foi o principal alvo da 26ª fase da Operação Lava Jato, chamada Xepa, deflagrada ontem pela Polícia Federal (PF) em várias cidades do Brasil. Segundo a Força Tarefa da Lava Jato, através do "Setor de Operações Estruturadas", a Odebrecht mantinha uma espécie de contabilidade paralela responsável por pagamentos ilícitos. A estimativa é que pelo menos R$ 66 milhões foram distribuídos a pessoas relacionadas a diversas obras e serviços, não só federais, mas também estaduais e municipais. Esse valor foi identificado em apenas uma das contas administradas pelo departamento de pagamento de propina da empreiteira. Entre essas obras estão Arena Corinthians, em São Paulo; o Porto Maravilha, no Rio de Janeiro; e o Canal do Sertão, em Alagoas. Segundo o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos coordenadores da força-tarefa da Operação Lava Jato, a construção da Arena Corinthians foi viabilizada com o pagamento de propina pela Odebrecht (leia mais na página 9).
Durante a Operação Xepa, cerca de 380 policiais federais cumpriram mais de 100 ordens judiciais nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Bahia, Piauí, Distrito Federal, Minas Gerais e Pernambuco. Foram 67 mandados de busca e apreensão, 28 mandados de condução coercitiva, 11 mandados de prisão temporária e quatro mandados de prisão preventiva.
Segundo a procuradora do Ministério Público Federal (MPF), Laura Gonçalves Tessler, o esquema da Odebrecht é a maior movimentação de propinas que a Lava Jato descobriu. E chamou a atenção dos procuradores e policiais o fato de que os pagamentos ilegais pela empreiteira continuaram ocorrendo mesmo após o andamento da Operação Lava Jato, conforme foi comprovado por troca de e-mails entre os investigados. "Chega a ser, de certa forma, assustador. Mesmo com a prisão de Marcelo Odebrecht se teve a ousadia de continuar a operar o pagamento de propina em detrimento do poder público", afirmou a procuradora, durante coletiva de imprensa na sede da Polícia Federal, em Curitiba, ontem pela manhã.
Marcelo Odebrecht foi preso no dia 19 de junho de 2015, na 14ª fase da Lava Jato, chamada de Operação Erga Omnes. O empreiteiro foi condenado, no último dia 8, pelo juiz federal Sérgio Moro, a 19 anos e 4 meses de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa.
Segundo a Força-tarefa da Lava jato , o departamento de propinas foi encerrado no final do ano passado, após ter funcionado por aproximadamente seis anos e as provas foram destruídas. As planilhas de pagamentos ilegais foram descobertas na casa de uma das funcionárias desse departamento, Maria Lúcia Guimarães Tavares, detida na 23ª fase da Lava Jato, a "Acarajé", quando foram presos também o marqueteiro do Partido dos Trabalhadores (PT), João Santana, e a mulher dele, Mônica Moura.
Maria Lúcia era responsável pela organização dos pagamentos ilícitos da Odebrecht. Ela fechou acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal, que já foi homologado. Assim, a Operação Xepa acabou sendo um desdobramento da Operação Acarajé. O procurador do MPF Carlos Fernando dos Santos Lima lembrou que o foco da Lava Jato é a Petrobras, mas ressaltou que o combate à corrupção continua independente de setor, localidade ou partido político. Ele explicou que os indícios de pagamento de propina em outras obras, envolvendo governos estaduais e municipais serão encaminhados para os ministérios públicos e delegacias de polícia competentes. E finalizou: "Claro que a Lava Jato tem um foco básico na Petrobras. Entretanto, ela está no combate à corrupção. Tendo provas de corrupção, seja qual for a empresa, seja qual for o partido, seja qual for o governo, nós vamos dar encaminhamento às investigações".
DELAÇÃO PREMIADA
O grupo Odebrecht decidiu fazer um acordo de delação de seus principais executivos, inclusive o ex-presidente Marcelo Odebrecht. A Odebrecht também fará um acordo de leniência, que é uma espécie de delação para empresas. "Esperamos que os esclarecimentos da colaboração contribuam significativamente com a Justiça brasileira e com a construção de um Brasil melhor", afirma em nota a empresa. (Com Folhapress)


