Presidente publicou que uma jornalista de O Estado de S. Paulo  disse "querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro"
Presidente publicou que uma jornalista de O Estado de S. Paulo disse "querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro" | Foto: Evaristo Sá /AFP



São Paulo - Entidades repudiaram o ataque feito no domingo (10) pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) contra uma repórter do jornal O Estado de S. Paulo com base no relato deturpado de uma conversa. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) divulgaram nota na qual dizem que "quando um governante mobiliza parte significativa da população para agredir jornalistas e veículos, abala um dos pilares da democracia, a existência de uma imprensa livre e crítica".

Em sua conta oficial no Twitter, o presidente Bolsonaro publicou que a jornalista Constança Rezende disse "querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro" e divulgou um áudio dela com uma pessoa não identificada. A transcrição da gravação não coincide com a interpretação que o presidente faz das falas.

A gravação havia sido publicada pelo site Terça Livre, alimentado por apoiadores de Bolsonaro e que, nesta segunda (11), fez novo ataque à jornalista com a divulgação de uma postagem falsa.

Em nota, a Abraji e a OAB afirmam que a publicação feita pelo presidente é uma tentativa de intimidação. "Isso mostra não apenas descompromisso com a veracidade dos fatos, o que em si já seria grave, mas também o uso de sua posição de poder para tentar intimidar veículos de mídia e jornalistas, uma atitude incompatível com seu discurso de defesa da liberdade de expressão", afirmam.

A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) disse em nota repelir "com indignação" as ameaças à jornalista e que as considera "grave ofensa ao livre exercício profissional, à liberdade de imprensa e à própria democracia". "A ABI volta a lembrar ao Supremo Mandatário que a liturgia do cargo que ocupa exige equilíbrio, serenidade, linguagem moderada e altivez", afirma o comunicado assinado pelo presidente da associação, Domingos Meirelles.

Democracia

Em nota assinada pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádios e Televisão (Abert), Associação Nacional de Editores de Revista (Aner) e Associação Nacional de Jornais (ANJ), as entidades lamentam que "o presidente da República reproduza pelas redes sociais informações deturpadas e deliberadamente distorcidas com o sentido de intimidar a jornalista e a liberdade de expressão". "Os ataques à repórter têm o objetivo de desqualificar o trabalho jornalístico, fundamental para os cidadãos e a própria democracia", afirmam.

Na gravação divulgada por Bolsonaro, a repórter fala em inglês sobre o caso de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro que recebia dinheiro de outros assessores. No trecho divulgado pelo presidente, ela diz que o caso "pode arruinar Bolsonaro".

Em texto sobre o episódio, O Estado de S. Paulo disse que a jornalista "não fala em 'intenção' de arruinar o governo". "A repórter avalia que 'o caso pode comprometer' e que 'está arruinando Bolsonaro', mas não relaciona seu trabalho a nenhuma intenção nesse sentido."

A interpretação deturpada da conversa foi inicialmente publicada pelo site Terça Livre. Nesta segunda (11), o site voltou a atacar a mesma jornalista em uma live no Twitter. Allan dos Santos, que apresenta o vídeo, exibe um tuíte falso atribuído a Constança Rezende. A conta verificada da repórter na plataforma tem outro endereço - e a mostrada na live está suspensa da plataforma.

PSL

A autora do texto publicado no site Terça Livre que usa falas deturpadas de uma jornalista para dizer que sua intenção era "arruinar" o governo de Jair Bolsonaro é assessora de um deputado estadual do PSL, partido do presidente, em Minas Gerais.

Fernanda Salles trabalha como assessora de imprensa e é responsável pelas mídias digitais de Bruno Engler (PSL-MG) - terceiro deputado mais votado para a Assembleia em 2018, com 120.252 votos. Nas redes, Engler tem vários vídeos de apoio a Bolsonaro.

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