''O voto é cada vez mais racional''
O analista político Gaudêncio Torquato acredita que a profunda crise social tem deixado o brasileiro mais atento. Essa mudança teve um marco importante com o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello. O último ato foi a renúncia forçada do ex-senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), que preferiu voltar para Bahia e manter os direitos políticos, a ser cassado pelos colegas. Eu diria que o voto cada vez mais está saindo do coração para subir na cabeça. O voto é cada vez mais racional, atesta.
Professor titular de comunicação política da Universidade de São Paulo (USP), Guadêncio vê na crise energética um importante ingrediente para as eleições presidenciais do ano que vem. Para ele, o mês de outubro, último prazo para mudanças partidárias, também é a data limite para o governo afastar a possibilidade de um apagão e melhorar os indicativos sociais. Caso contrário, eleger o sucessor pode se transformar numa missão quase impossível para Fernando Henrique Cardoso. Os ratos vão fugir do barco.
Lúcio Horta
De Londrina
A renúncia de um senador tão poderoso como Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), a partir da polêmica formada com a violação do painel eletrônico do Senado na cassação do ex-senador Luiz Estevão (sem partido-DF), reflete um processo acelerado de mudança social. Cada vez mais o brasileiro está atento aos fatos políticos e não admite tropeços de conduta ética dos seus representantes.
A opinião é de Gaudêncio Torquato, colunista da Folha, professor de comunicação política da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais conceituados analistas políticos brasileiros. Quem mandou os senadores (ACM e José Roberto Arruda, que também renunciou ao cargo) para casa não foi a sua própria vontade nem foram os políticos. Foi a sociedade, por meio da pressão social, por meio da crítica, do acompanhamento. Isso é a grande mudança que está ocorrendo no Brasil.
Crítico do governo de Fernando Henrique Cardoso, o analista entende que o Palácio do Planalto erra feio quando só tem vistas para a estabilidade econômica e esquece do Brasil social, que sofre com o desemprego, a violência, a miséria e doenças que, pensava-se, estavam extintas. Eu diria que algo está muito errado e é preciso que se diga isso ao presidente. Ele é mal assessorado politicamente, vai empurando as coisas com a barriga, não decide. Então diria que essa crise está mostrando as nossas víceras e por isso que a sociedade está indignada, afirmou o analista, criador do chamado Produto Bruto da Infelicidade Nacional, ou PBIN. Estamos vivendo hoje sob um império monetarista e as feridas sociais cada vez mais abertas, sangrando
Gaudêncio passou por Londrina na semana passada levantando dados para uma pesquisa sobre a realidade sócio-econômica brasileira. A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha.





