O voto com raiva
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terça-feira, 09 de outubro de 2018
Luiz Geraldo Mazza 
O voto com raiva
Antes de um combate, os lutadores se cumprimentam e a atmosfera criada é a de que haverá, apesar das aparências em contrário, muito fair play. Foi a impressão deixada segunda-feira (8) no Jornal Nacional nas entrevistas de Bolsonaro e Haddad. Um não muito enfático manifesto pela democracia e de outro lado uma rejeição à convocação de Constituinte, de qualquer forma válidos.
Não é muito, mas para início de conversa equivale à troca de flâmulas entre jogadores antes de começar a partida de futebol. Mas na realidade não é isso que as forças em conflito expressam em função do acumulado do primeiro turno das eleições: não há espaço para o meio tom, tanto que Bolsonaro quer aprofundar o sentimento anti-PT e de forma inegociável, e Haddad tenta mostrar uma permeabilidade na qual o adversário não crê.
O eleitor em maioria absoluta votou com raiva numa rejeição à totalidade do sistema como se ele precisasse ser abolido e não há da parte dos litigantes um programa para um país quebrado na perspectiva fiscal com furo de trezentos bilhões como amostra. Da mesma forma que mostrar preocupação extrema com a falta de segurança nada garante igualmente o discurso genérico da inclusão social, não passa de uma abstração como se isso pudesse aflorar sem um mínimo de conflito e tensão dialética.
Do jeito que as coisas estão o pensamento está interditado na medida que sem o diálogo os fatos não avançam, como ensinava Sócrates na ideia da maiêutica, a parturição mental, epistemológica, dos contrastes. Infelizmente, até aqui um clima apropriado à loucura e muito distante da razão. O antipetismo e o "Ele não" são categorias que se rejeitam, que se excluem.
O que tivemos foi uma explosão coletiva do voto com raiva. E que raiva!
Lideranças extintas
Dificilmente dá para imaginar, embora sua juventude, a reabilitação de Beto Richa como liderança política, se é que alguma vez a exerceu efetivamente. Muito menos a de Requião, aquele que mais vezes governou o Paraná. Nunca tiveram expressão nacional de peso, posto que não lhes faltasse potencial para tanto em função da expressão de nossa economia em escala brasileira, ascendente.
Com todo o papel que exerceram - um duas vezes reeleito prefeito e governador no primeiro turno, outro burgomestre da capital e três vezes ocupante do Palácio Iguaçu- tiveram as suas respectivas biografias devastadas .Aliás, era tão dominante a perspectiva de que levariam as duas vagas para o Senado que se tentava uma emulação de quem teria sido o melhor dos governos. Se houve o julgamento, ambos se deram muito mal.
Dá para configurar na eleição de Oriovisto Guimarães e Flávio Arns, antes e acima de tudo, a vitória da sobriedade. Um detalhe: os dois são da Academia Paranaense de Letras.
Golpes
Mais uma vez, pois a tática não é nova, revendedoras de automóveis se recusam a entregar mercadorias vendidas e provocam agito de consumidores e intervenção policial. Como se não bastasse esse atropelo, uma instrução do Conselho Nacional de Trânsito está criando dificuldades na liberação de veículos por excesso de burocracia e criando agito na entrada do Detran que parece contaminado pela raiva eleitoral.
Lipoaspiração
Ratinho Junior promete fazer aquilo que seus antecessores não tiveram peito para colocar em prática: a redução significativa do aparato público, reduzindo secretarias, economizando edificações e também evitando a proliferação dos cargos em comissão. Normalmente isso se dá por uma espécie de decalque: o governo federal cria ministérios para atender aliados, e estados e prefeituras entram em onda equivalente. Por vezes a ideia cultivada no país de governabilidade com a ampliação dos espaços ministeriais foi copiada por Lerner e seus sucessores. Aliás, Ratinho, sincronizado com Jair Bolsonaro, confia que a linha será adotada nacionalmente como o candidato tem afirmado.
Reajuste
Tanto o governo estadual quanto as prefeituras sofrem com a crise fiscal. No caso da prefeitura da capital está mais ou menos claro que sai aos poucos do sufoco, tanto que Rafael Grerca, depois de alterar a data base do funcionalismo, anunciou um reajuste de 3%, pouco acima do de 2,76% conferido aos estaduais, à exceção do pessoal do Executivo. No campo municipal há uma diferença modular em tamanho e extensão e mais enxuta e portanto em condições de melhor operacionalidade.
Problema chave tanto do estado como do município é o fato de as despesas, mesmo as de traço inercial, crescerem bem mais do que as receitas.
Folclore
Hoje as redes sociais estão aí deitando e rolando nas eleições. No passado distante usava-se muito os classificados de jornais para mensagens em código. Lembro de um em que se punha à venda um conjunto de eleitores, um mangueirão. No título "Cabo eleitoral".


