O retorno esperado
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terça-feira, 05 de novembro de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
O governo central, ao anunciar o corte de assinaturas da "Folha de S.Paulo", espera da parte do seu público, seus seguidores, postura semelhante e como a sua guerra com a Globo, também permeada de ameaças, invoca esse tipo de apoio duas empresas de Curitiba, uma rede de supermercados (Condor) e uma imobiliária (Habitec Imóveis), acabam de anunciar boicote à Vênus Platinada.
Esse tipo de situação lembra em 1964 o cerco ao jornal "Última Hora" por organismos de extrema direita como o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), comandado por Amaral Neto, que instigava o consumidor e usuário a não adquirir mercadorias de empresas que anunciavam naquele órgão de imprensa. Mas aqueles tempos eram irrigados por algo hoje não caracterizável e abrangente como a Guerra Fria e o embate enfim entre democracia e comunismo, fartamente deformado em função do fanatismo. O apelo é adequado ao clima brasileiro em que, além da vitória eleitoral e sua consolidação, há um clima de alta toxicidade ideológica com a velha queixa de que não deixam Bolsonaro governar.
Os apelos radicais, via rede sociais, testam justamente o retorno dessas mensagens e não há como impedir que haja boicote ou que eventualmente cresça a clientela tanto do jornal como da Globo, mas o rumo é o da intolerância. E raciocinar bem nesse contexto nada tem de singelo: não há adversários em cena, mas inimigos dispostos a tudo.
No caso da declaração do deputado Eduardo Bolsonaro sobre o Ato 5 a resposta foi contundente todavia ficou claro que agradou, pela provocação, alguns segmentos.
Ditadura de fora
Desde 2009 o Enem levanta questões sobre a ditadura militar, o que não ocorreu agora pela primeira vez. Isso não impediu a discussão sobre temas sociais como quilombolas e o Sistema Único de Saúde e o tema de redação, oportuníssimo, sobre democratização do acesso ao cinema no Brasil. Por sinal que caiu muito o número de inscritos, isso sem falar na evasão e nas desistências, com cinco milhões de inscritos, no Paraná 211 mil.
Laranjas e fantasmas
Além do caso do laranjal do PSL, que atinge as duas facções que disputam o partido, há denúncias de que seus deputados despenderam recursos com empresas fantasmas: 20 dos 53 deputados apresentaram à Câmara pedido de ressarcimento de R$ 730 mil por serviços prestados por firmas que não existem nos endereços informados nas notas fiscais. Não adianta Lava Jato. Talvez uma tempestade de água benta resolva.
Minerva
A expectativa de que mais uma vez o voto de Minerva, no caso do presidente do STF, Dias Toffoli, decide a parada da prisão pós segunda instância. É de imaginar-se que esteja sendo, ainda que com delicadeza e elegância, pressionado. Não há clima para goleadas, porém se admite que a jurisprudência atual seja modificada por mais de um voto. Mesmo com a sacralidade do ambiente não se pode deixar de considerar o tom radical da disputa e um clima, pelo menos na perspectiva do público, que lembra em certa medida o furor das torcidas organizadas. Grande, imensa também, a pressão de criminalistas que ganham mais espaço com a continuidade incessante dos recursos.
E em meio a tudo isso há o inegável esforço do ministro Dias Toffoli para ambiente menos hostil. Tentou, nas suas cogitações, mediações híbridas para a questão da próxima quinta feira, o dia d.
Caso Marielle
O ministro da Justiça, Sergio Moro, quer a federalização do caso Marielle. Alias a procuradora Raquel Dodge já havia adotado essa orientação. Esse alinhamento põe em dúvida a neutralidade da polícia do Rio de Janeiro sabidamente minada pelas milícias como destacou o ex ministro da Justiça, de Michel Temer, que afirmou ser impossível uma tramitação processual em que as chefias, civis ou militares, já estão comprometidas. Apesar de isso ter sido dito quando a área estava sob intervenção militar e do impacto da afirmação pouco se comentou.
Associações que representam os delegados de polícia no Brasil divulgaram nota de repúdio a Bolsonaro sugerindo direcionamento nas investigações do assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Acusam o presidente de intimidar a polícia com o propósito de inibir a imparcial apuração da verdade ao insinuar em vídeo e entrevistas a adulteração de provas e referir-se ao delegado que comanda o inquérito como "amiguinho" do governador do Rio, Wilson Witzel, com quem tem trombado.
Folclore
Polarização em política torna as outras soluções inaceitáveis. Assim foi em 1985 em que o radicalismo na eleição da prefeitura da Capital opunha Jaime Lerner, tido como imbatível, e Roberto Requião. O outro postulante era o ex-governador Paulo Pimentel e que tinha como seu vice o engenheiro Ivo Arzua que, como prefeito, deu novo Plano Diretor à Capital. Apesar do histórico de ambos o embate eleitoral ficou com os polarizadores, sobrando muito pouco para o alternativo. Carregado às costas por José Richa, como São Cristovão conduzindo Jesus, Requião venceu. Richa fez treze pontos nas eleições em Curitiba e na área de segurança, não houve zebra.


