O poder permeável

O poder é permeável de tal forma a milícias, tráfico de drogas e coisas menores como roubo de carros e redes de desmanches que só falta no Brasil aceitar o PCC e Comando Vermelho na base partidária, se é que já não estão, mimeticamente ajustados. O Rio de Janeiro é o maior exemplo, como se vê nas prisões de seus ex-governadores e ex-presidentes do Legislativo e em episódios bizarros como a prisão de vários conselheiros do Tribunal de Contas.

Na esteira das investigações sobre Flávio Bolsonaro e seu assessor Fabrício Queiroz apurou-se que foram empregados parentes de suspeito de comandar milícia através do ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, expulso da corporação e hoje foragido. Como se vê, o prato se sofistica e dentro em pouco há referência ao assassinato da vereadora Marielle Franco, ainda mais agora com a prisão de cinco dos principais líderes de milícias no Rio.

Quando Carlos Lacerda estava no auge como governador, o jornal oposicionista "Úlima Hora" sacou a história de que lançava mendigos no rio da Guarda. Além de "corvo" pela morte de Getúlio Vargas passou a ser chamado de "mata-mendigos". Se tais critérios de imprensa ainda persistissem dá para imaginar as dimensões do horror que enfrentaríamos. Nossa mídia deu, sem dúvida, razoável melhorada.

O fato é o seguinte: a autoridade combate, mas também negocia com o crime (ninguém esquece do estado de sitio imposto em São Paulo e também das respostas que a polícia deu) e tem como mediadora, às vezes dos dois lados, a classe política. Quando o ministro da Justiça, Torquato Jardim, afirmou que todas as chefias, civis e militares, do Rio de Janeiro estavam ligadas ao crime organizado não se viu nenhuma figura daquela unidade sair-se em defesa das instituições, até porque algumas delas, como o governador Pezão, estavam programadas para uma provavelmente longa temporada de prisão.

Olho nos dois bilhões

O Estado brasileiro - e disso não escapa o paranaense - é autofágico, isso é, arrecada para sobreviver e manter-se em sua instabilidade permanente como seve na crise fiscal que atinge sua expressão em todos os níveis, o municipal, o estadual e o federal, todos rigorosamente quebrados ou à beira de tal. Ao perceber que o maior investimento do Paraná é nas folhas de pagamento, que alcançam quase dois bilhões mensais (1,2 bi para ativos e R$ 700 mi para aposentados e pensionistas), era necessária uma auditoria para evitar "furos" e casos de deformações. E a cultura de gastança é tão clara que o dirigente (se fosse ironia socrática, vá lá) da APP-Sindicato sugere que a economia daí resultante e também das despesas de custeio sejam revertidas em reajustes que não ocorrem há vários anos.

É avaliando tais circunstâncias que se entende a mexida de Beto Richa na previdência ao tirar das obrigações do Tesouro mais de 70 mil inativos, e passando-os para responsabilidade do fundo de pensão, a Paranaprevidência, nada menos de R$ 2 bi anuais. Ao descapitalizar por vários anos um dos mais consistentes fundos de pensão estadual, reduziu-se e em muito o horizonte atuarial da organização, mas concedeu-se moratória ao insolucionável problema, como convém aos que olham as coisas pela perspectiva mais imediata e não têm o menor compromisso com o futuro. O governador parece estar preocupado com essa falta de perspectivas, daí os gestos até aqui adotados.

Antes do decreto

Muito se discute sobre a questão do decreto que teria facilitado a questão da posse de armas, mas fica claro que muito pouco impedia esse acesso. O Sistema Nacional de Armas mostrou que de 2014 a 2018 houve, apesar das normas contenciosas, alta de 49%, o que leva a uma taxa de 165,8 armas para defesa pessoal por 100 mil habitantes. Em algumas unidades federativas, o aumento surpreendeu, como o Espírito Santo, com 648,2%, Rondônia, com 410,3%, Paraíba, com 300%, Minas, com 235%. O Paraná, onde têm caído severamente os índices de violência, aparece com apenas 22,3%. Aliás, no plebiscito do desarmamento, vitorioso no Brasil, o Paraná deu grande contribuição.

Arábia reage

A decisão da Arábia Saudita, grande consumidora da nossa carne de frango, de vetar o produto de 33 frigoríficos brasileiros é interpretada como decorrente daquele saque de Jair Bolsonaro de transferir a embaixada brasileira de Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Posturas de agora em Davos se encaminham para revisão. Ainda bem.

Preocupação

Um levantamento de infestação do Aedes aegypti deste ano em Londrina mostrou que a cada cem imóveis vistoriados quase oito têm foco do mosquito. A aguda sintonia desta "Folha" com seu mundo mais imediato levou-a dar o destaque em manchete, pela circunstância de que essa infestação de 7,9% é maior que os 5,4% de três meses atrás. Mobilização já !

Folclore
Até aqui pelo menos Ratinho Junior está se saindo bem nas intervenções nacionais: sua posição pela inserção das Forças Armadas na Reforma da Previdência precede (é claro, a mais importante) do vice-presidente da República, e isso marca ponto como também a questão da austeridade nos gastos.

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