O poder deve ser usado para servir
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sábado, 30 de setembro de 2006
Ana Setti<br>Reportagem Local 
Houve um tempo - e parece, contando assim, história da carochinha -, em que os vereadores, o primeiro degrau da longa escadaria de ascensão política, não recebiam remuneração pelos serviços políticos prestados. As exceções poderiam ficar por conta daqueles municípios com mais de 100 mil habitantes, e isso só a partir de 1967. Mesmo assim, os valores equivaleriam, nos dias de hoje, a algo em torno de dois salários mínimos.
Nesse contexto, ''as pessoas que se dispunham a disputar a vereança eram lideranças da comunidade - presidentes de associações comunitárias e de bairro, ou vinculadas à assistência social -, pessoas que tinham a vocação da prestação de serviço, e mostravam alto espírito de solidariedade'', lembra o empresário José Eduardo de Andrade Vieira.
Conhecedor dos meandros do poder, tendo atuado como senador pelo Paraná, a partir de 1991, e como ministro da Indústria, do Comércio e do Turismo, de 1993 a 1994, e da Agricultura, do Abastecimento e da Reforma Agrária, de 1995 a 1996, Andrade Vieira valoriza essa ''vocação para servir'' como um diferencial para o exercício mais íntegro da política.
''No final dos anos 70'', complementa, ''para obter maior apoio político-partidário, o regime militar estendeu aos vereadores os benefícios relativos a remuneração, de que já dispunham deputados e senadores''. A principal consequência, conforme explica, ressaltando que ''a vereança é a grande escola de formação política'', foi uma grande distorção no objetivo da disputa eleitoral. ''Sem generalizar, podemos dizer que houve uma maior procura pelo benefício do salário, em detrimento do benefício à comunidade.''
Na esteira da prevalência do interesse próprio em relação ao interesse da sociedade, surgiu outra distorção ou ''aberração política'', de acordo com o empresário, ''candidatos que gastam, para se eleger, dezenas de vezes mais do que vão receber no mandato todo''. Para Andrade Vieira, ''os eleitores deveriam negar seu voto para esses candidatos visivelmente gastadores na campanha''.
Um dos caminhos para a retomada de propósitos mais isentos na busca pelo poder político, segundo avaliação do empresário, seria ''a adoção do voto distrital'', pelo qual a divisão é feita por distritos eleitorais: regiões com aproximadamente a mesma população. Cada distrito elege um deputado e, assim, completam-se as vagas no parlamento e nas câmaras estaduais.
Diferentemente do sistema proporcional em vigência no Brasil, no qual o candidato precisa de um grande número de votos, porque o colégio eleitoral é todo o estado, tornando o contato direto com os eleitores quase impossível; o sistema distrital assegura identidade entre eleitores e seus representantes políticos, pois é diretamente fiscalizado pelos moradores de seu distrito, aos quais está sempre prestando contas de sua atuação. O voto distrital, como comenta Andrade Vieira, ''é uma forma de garantir um compromisso mais estreito do político com a sua comunidade''. E, por esse prisma, valorizar o princípio norteador da política, ''que é servir o Estado e não se servir do Estado''.


