O mundo das aparências
Vários filósofos se ocuparam com o mundo das aparências para estabelecer não apenas fenômenos mutantes como a diferença existente entre o real e o fictício. Se há uma categoria especializada em viver em cima dessa precária distância entre uma coisa e outra é a dos políticos.
Quando se saúda o discurso de Lula sugerindo distância ética entre as razões de mercado e outras de natureza espiritual e cultural como crítica ao neoliberalismo, simplesmente está repetindo, sem o mesmo brilho, conceitos do seu antecessor que os proferiu em âmbitos muitos mais refinados como o de Ouro Preto, seja na ONU ou na Assembléia Nacional Francesa. Mas uma coisa é o conceito epistemológico, metafísico, e outra o pragmatismo da modernidade. Nem sempre o que se diz em teoria prevalece no mundo prático. Por isso Descartes em sua concepção de filosofia escreveu duas obras: ''A crítica da razão pura'' e ''A crítica da razão prática''.
RUPTURA As constantes ações de Requião anunciando a ruptura de contratos, o que não deixa de ter um lado saudável, e mudanças estrepitosas enunciadas para a Sanepar e que deixaram tudo exatamente como estava, obrigam a essa reflexão. Há todo o jeito de que teremos um governo que apostará mais em atitudes do que em obras até porque convém diferenciar-se dos demais governantes quando se acredita na sucessão presidencial. Por exemplo: o bingo opera em quase todo o Brasil, da mesma forma que o pedágio, que decorre de modelo nacional, em função de o Estado ter notoriamente quebrado.
Como o pedágio está bem alicerçado juridicamente, tenta-se a via política para criar um estado de hostilidade ao sistema, posto que a maioria (até porque ninguém gosta de pagar nada, muito menos tributo diferenciado) seja contra o alto valor das tarifas. No caso do bingo deve ocorrer um problema de conflito de competência jurisdicional: da mesma forma que os exploradores do jogo se agarram na liminar da Justiça Federal do Ceará os adversários da privatização da Copel buscavam em lugares, os mais variados, medidas judiciais contra o leilão e que tinham igualmente força mandamental. Todas privatizações passaram por esse tipo de situação. Os bingueiros se agarram naquela liminar como se repetissem o refrão ''no Ceará não tem disso, não''.
SEGREDO Um exemplo da predominância da atitude sobre a obra foi dado por Alvaro Dias com a hidrelétrica de Segredo, iniciada na gestão Richa: ao denunciar a formação de cartel conseguiu imobilizar os barrageiros e impor um consórcio paranaense (DM-Cesbe-Sinoda) para tocar o empreendimento. A atitude valeu tanto ou mais do que a obra, mesmo que parecesse temerária.
O pior, porém, é quando o discurso conflita com a prática. Enquanto a caravana da aliança governamental percorria cidades na campanha anti-pedágio, para criar um fator político de pressão aos consórcios rodoviários, o DER autorizava, com a maior naturalidade, já que custos não se derruba com discursos e agitos, a alta da tarifa do ''ferryboat'' na baía de Guaratuba de R$ 3,30 para R$ 3,90. Façam o que eu digo, mas não façam o que desfaço.





