O maluco que deu cara nova à direita
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de abril de 1997
Celso Fontão Especial para a Folha 
De xodó do ex-governador Leonel Brizola à condição de líder assumido de uma nova centro-direita no Rio de Janeiro. Assim pode se resumida a trajetória do polêmico ex-prefeito do Rio, César Maia. Ex-secretário estadual de Fazenda, no governo Brizola, Maia abandonou o PDT para assumir espaço próprio no então esvaziado PFL carioca. Como prefeito, César se destacou pelos lances de marketing, principalmente ao assumir a condição de maluco e criar os chamados factóides, aquelas situações aparentemente naturais que a imprensa adora flagrar. Consegui aliar a imagem de maluco à coragem de fazer, diz César Maia. A seguir os principais trechos de sua entrevista:
Ele está na iminência de abraçar com maior vigor a assumida candidatura ao governo do Estado, no próximo ano. Sem ninguém para lhe fazer sombra no PFL carioca, Maia também é visto por alguns como uma eventual opção do partido à presidência da República. Só que com a reeleição praticamente aprovada e a manutenção dos laços entre PSDB E PFL, o próprio Maia sai pela tangente e diz que é cedo pra se falar em candidatura à presidência. Não gosto de queimar etapas, diz ele.Folha - O sr. é um assumido criador de factóides?
Maia - Na verdade, quem cria os factóides é a imprensa, eu apenas ofereço os fatos. A imprensa se encarrega de transformar esses fatos em notícias.
Folha - Varrer o Sambódromo ou levantar a calça pra atravessar em meio a uma enchente são gestos espontâneos ou visam às câmeras dos jornalistas?
Maia - Não sou eu quem edita os jornais. Se o editor acha que a foto vale a pena, ele determina o lugar que ela vai ocupar na edição.
Folha - E a história de assumir a maluquice e ainda conseguir tirar proveito da situação?
Maia - Todo político recebe algum tipo de qualificação. Alguns são chamados de bêbado; outros, de ladrão; outros de homossexual; outros, de marido traído. Eu fiquei como maluco, o que não é dos piores. Só que, no início, a história da maluquice era aliada à imagem do palhaço. Consegui reverter essa imagem, aliando à maluquice e a coragem, a força de vontade de fazer as coisas. Então, hoje, consideram-me maluco por ter sido corajoso de enfrentar a desordem que existia nesta cidade.
Folha - Nesses quatro anos de prefeitura, qual foi o lado mais forte da sua administração?
Maia - Acho que foi a volta da noção de ordem urbana e da autoridade nesta cidade, que, há muito tempo, se ressentia de um ordenamento urbano para que as pessoas pudessem usar as calçadas e ruas como extensão de suas casas.
Folha - Caso o prefeito se permitisse a uma autocrítica, poderia afirmar que deveria ter feito mais na solução de problemas sociais, nas áreas de saneamento básico, saúde, educação, habitação?
Maia - Por incrível que pareça, quando comecei o governo não imaginava que pudesse realizar tudo aquilo que realizei. Sabia que iria realizar muita coisa, mas não tanto quanto foi possível. Na área social, tivemos um trabalho muito importante em relação ao menor de rua e à população de rua. Pegamos a prefeitura com apenas um abrigo para meninos de rua. Estamos deixando-a com 15. Na área de saneamento básico, embora as redes de esgotos e drenagem não sejam da alçada da prefeitura, mas da alçada do Estado, em todos os locais onde entrou o projeto Rio Cidade a prefeitura atuou. O mesmo aconteceu no projeto Favela-Bairro. Em todas as favelas onde o projeto está se desenvolvendo ou já se desenvolveu, a questão do saneamento básico é primordial. Acabamos com as valas negras. As crianças já não andam mais no meio da lama e dos detritos. Hoje, está tudo pavimentado e é possível ter uma qualidade de vida melhor. No setor saúde, reformamos os hospitais municipais. Quanto à educação, vale lembrar que o Rio é o único município do País a manter com recursos próprios o ensino público de primeiro grau, com 1.033 escolas, 668 mil alunos, 38 mil professores e 10.846 servidores de apoio. Para se ter uma idéia do que foi realizado, a prefeitura aplicou nesses quatro anos de administração 75% de seu orçamento em políticas sociais.
Folha - Qual a sua opinião sobre o ex-governador Brizola? Ele ainda tem chance de ser presidente da República?
Maia - Acho que não. O governador é um homem que eu respeito e considero o maior líder nacional que o Rio de Janeiro já teve. Mas, infelizmente, o governador Brizola parou no tempo. Ele é um político típico da década de 50. Não se atualizou. O mundo evoluiu e ele continuou agindo como se estivesse nos anos 50. Acho que ele não tem a menor chance de ser um presidente da República.
Folha - O César Maia abandonou os ideais que o obrigaram a se exilar após o golpe de 1964?
Maia - Acho que os ideais que me obrigaram ao exílio após o golpe de 64 não morreram, evoluíram. Cito apenas o exemplo do programa Favela-Bairro, que certamente qualquer partido de esquerda teria tido orgulho em realizar. E nós o fizemos.
Folha - O sr. se assume como um dos principais líderes de centro-direita brasileira?
Maia - Evidentemente, considero-me e sou líder da centro-direita carioca. Quanto à questão da lógica de economista vitorioso, na verdade, vejo mais como um amadurecimento do meu pensamento político, porque me distanciei do PDT por divergir da orientação do partido. Acabou ficando provado pela própria falência do PDT no Rio de Janeiro que eu estava certo. Na verdade, o pensamento político internacional evoluiu, e o PDT não acompanhou essa evolução. O mesmo acontece com o PMDB do Moreira Franco, que não tem expressão no Rio de Janeiro, isso falando em nível de política regional. Quanto à liderança de Marcello Alencar, acho que ele levou para o PSDB o que havia de mais característico do PDT.
Folha - Dois assuntos: globalização e privatização da Vale do Rio Doce...
Maia - Como já tenho afirmado, não sou favorável a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, nem da Petrobrás, que são duas empresas estatais muito bem administradas que só trazem dividendos para o País, colocando-o entre os primeiros do ranking mundial. Sou a favor da privatização quando a empresa não cumpre o seu objetivo, deve ser privatizada porque está onerando o cidadão. Sou a favor da privatização a partir do momento em que uma empresa pública, não cumprindo seu objetivo, onera o contribuinte.
Folha - Consta que o prefeito Conde não tem projeto político pessoal. Será ele seu principal cabo eleitoral nas eleições para o Governo do Estado, no próximo ano?
Maia - Obviamente, ao fazer um bom governo, Luiz Paulo Conde será um esteio para minha candidatura ao Governo do Estado. Tenho certeza de que ele fará um bom governo porque foi meu braço direito ao longo do meu governo. Foi ele quem formulou as políticas da cidade. Eu apenas as executei.
Folha - Uma eventual candidatura à Presidência da República está totalmente descartada?
Maia - Acho um pouco cedo para falar em Presidência da República. Não gosto de pular degraus. Então, no momento, o objetivo mais próximo é a candidatura ao governo do Estado. A Presidência é uma questão que prefiro deixar para o futuro.


