Brasília Sai o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, entra o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, se os partidos e os perfis são inteiramente distintos, líderes partidários e governadores que já tiveram contato com o atual e com o futuro presidente da República não têm dúvida de que uma coisa não mudará no Palácio do Planalto: o instrumento usado na conquista e no convencimento dos políticos que baterem à porta do gabinete presidencial.
''O governo muda, mas a sedução fica'', resume o senador e governador eleito do Espírito Santo, Paulo Hartung (PSB). ''Tanto Lula quanto Fernando Henrique, cada um a seu modo, são absolutamente sedutores'', concorda o governador eleito da Paraíba, Cássio Cunha Lima (PSDB), ao confessar que, por pouco, não acabou vítima da sedução do presidente eleito junto ao eleitorado paraibano, apoiando seu adversário na corrida estadual.
Reconhecidos por aliados e adversários como craques em sedução, os dois presidentes têm estilos singulares. Fernando Henrique não dispensa os títulos, abusa do charme de intelectual e poliglota quando a ocasião pede ou permite, e chega a ser diabólico com quem o procura para levar queixas ou reivindicações. Lula, por sua vez, encanta com a franqueza, a espontaneidade e o tratamento informal, afetuoso.
Intimidade Foi assim na primeira reunião do presidente petista com os sete governadores tucanos em Araxá (MG), na última segunda-feira. Mal foi aberto o encontro, ele foi logo avisando: ''Em um ambiente reservado como este, não é preciso essa formalidade de excelência e presidente. Vocês podem me chamar de Lula''.
''Tenho intimidade para pegar o telefone e ligar para vocês quando for preciso'', disse sob o olhar atento do governador de Rondônia, Ivo Cassol, que mal o conhecia e adorou. ''Eu tenho a mesma formação sua. Fui formado na escola da vida'', despediu-se Cassol, encantado.
Na avaliação do presidente da Câmara e governador eleito de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), enquanto Fernando Henrique tem conversas diferenciadas para cada interlocutor e sabe ser erudito com o mesmo talento que encarna um homem do interior, o presidente Lula tem uma característica que impressiona muito no primeiro contato: a enorme capacidade de transmitir sinceridade.
Não é o que caracteriza o presidente tucano, que evidencia seu lado Maquiavel quando assume as teses do interlocutor com tamanho brilho que confunde o visitante.
''Além de saber ouvir, Fernando Henrique consegue se antecipar à intenção do interlocutor de tal forma que, quando você percebe, ele já roubou seus argumentos e, com toda a elegância verbal, termina defendendo sua tese melhor que você'', atesta o líder tucano no Senado, Geraldo Melo (RN). O resultado é que os políticos deixam o Palácio sem se darem conta de que Fernando Henrique concordou com eles, mas não lhes fez promessa alguma.
''Só que os dois têm posturas distintas'', insiste Paulo Hartung, para quem FHC dirige sua sedução mais às lideranças do País, enquanto Lula foca mais as ruas. ''E se o estilo FH impõe o risco do isolamento, o que efetivamente ocorreu em alguns momentos deste governo, o do petista também pode ser perigoso. Focado nas ruas, Lula corre o risco do populismo.''

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