''O governo FHC está isolado''
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de junho de 2001
Érika PelegrinoDe Londrina 
O termômetro das mudanças que estão ocorrendo no Brasil não é a renúncia dos senadores Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e José Roberto Arruda (sem partido-DF) para evitar a cassação, depois da polêmica gerada com a violação do painel eletrônico do Senado; ou os inúmeros escândalos de corrupção envolvendo políticos do Brasil todo que têm sido noticiados aos borbotões pela imprensa.
Pelo menos não, na avaliação do jornalista José Arbex Jr. Segundo ele os escândalos, que dão a impressão de que o país não tolera mais a corrupção política, são consequência da decomposição do governo Fernando Henrique Cardoso, que não tem mais como atender seus interesses. A grande imprensa, na opinião do jornalista, faz o jogo destas oligarquias, mas é na sua contradição de ter que mostrar determinados fatos para não perder sua credibilidade, que ela acaba noticiando o que normalmente ocultaria.
Para o jornalista, as mudanças estão acontecendo num sentido muito mais profundo, estão ocorrendo porque existe uma parcela pobre da população que está disposta a criar movimentos de mudança nacional. Mas nada disto pode ser visto nas imagens das grandes emissoras de televisão ou nas páginas dos grandes jornais do país.
A grande imprensa, segundo ele, por ser sustentada pelas corporações nacionais, oculta o que realmente acontece no país e constrói a notícia de acordo com interesses políticos e econômicos. Arbex fala com a autoridade de quem teve uma trajetória de sucesso na grande imprensa, abandonou tudo para seguir outros caminhos e, mesmo fazendo duras críticas, conseguiu o respeito dos veículos de comunicação que o convidam para escrever artigos, fazer séries, como a sobre A Guerra Fria exibida em 14 episódios pela TV Cultura, e outros.
A seguir trechos da entrevista concedida à Folha
Folha O senhor trabalhou nove anos na Folha de S.Paulo e depois em outros veículos de comunicação. Por que deixou a grande imprensa?
Arbex Eu desenvolvi um tipo de preocupação com relação à participação política, que eu acho que todo intelectual deve ter, em relação aos movimentos populares que acaba sendo contraditória com o trabalho na grande imprensa. À medida que você participa de fato das atividades políticas dos movimentos populares você acaba se chocando com uma estrutura das grandes corporações nacionais que sustentam a grande imprensa, que faz parte desta estrutura repressiva e autoritária que é o Estado brasileiro. Então, no meu caso específico, achei que eu estava caindo num beco sem saída, porque eu queria expressar idéias que no fundo se chocavam com a própria estrutura do jornal em que eu trabalhava.
Folha O senhor acha que não é possível trabalhar na grande imprensa?
Arbex Eu estava falando do meu caso. Isto não significa que eu ache que não tem espaço na grande imprensa. Eu acho que tem. Existem jornalistas importantes que tem um espaço próprio e é importante que eles continuem na grande imprensa. Por exemplo, um sujeito como o Jânio de Freitas.
Folha O senhor faz críticas contundentes à grande imprensa...
Arbex A grande imprensa é mentirosa, falsifica, faz calúnias, injúrias, difamações contra os movimentos populares, cria histórias, esconde quando ela está interessada em esconder; é completamente dirigida por interesses corporativos e não pelo interesse jornalístico de dar a notícia de fato. Eu cito como grande exemplo o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra). O MST é a maior vítima da grande imprensa hoje, mas não é a única.
Folha O senhor diz que a grande imprensa age de acordo com interesses corporativos e constrói a notícia. Que exemplo daria de como isto é feito?
Arbex Entre o início da crise do Golfo em agosto de 1990 e o início da guerra do Golfo em janeiro de 91 houve a preparação psicológica do mundo antes do ataque ao Golfo, por uma força de 18 países lideradas pelos EUA. Durante seis meses os EUA bombardearam a mídia mundial com informações que pintaram Sadam Hussein como um louco e o George Bush (presidente dos Estados Unidos, na época) como o grande defensor da democracia. Quando a guerra começou já estava definido quem era o lado bom e quem era o lado mau. Já estava tudo preparado como se fosse uma telenovela. Isso acontece em todas as guerras, em todas as notícias, a todo momento é só ver o que eles fazem com o MST. O MST sempre invade terra, nunca ocupa, é sempre subversivo, desordeiro. Isto demonstra que a mídia controla muito bem este sistema psicológico de preparar a opinião pública.
Folha De que forma é feito este controle?
Arbex Ela (a grande imprensa) domina cientificamente este sistema psicológico de controle. A mídia testa a reação das pessoas com telenovelas, minisséries, através das quais ela sabe que linguagem usar para provocar determinadas reações. O Você Decide foi isso: uma maneira de captar informações de comportamento da população. A novela Rei do Gado foi isso, foi mostrar um MST que não existe que é a cara da Patrícia Pillar, um latifundiário que não existe, que é um latifundiário bonzinho e uma solução para a terra que não existe, que é o casamento entre o latifundiário e a moça do MST. Uma novela que finge que está discutindo uma situação real, mas na verdade cria uma situação que não existe. O telespectador assiste a novela, acha que está entendendo tudo e na verdade não está entendendo coisa nenhuma.
Folha Se a mídia está sempre fingindo discutir as situações que estão ocorrendo no país, como o senhor avalia o tratamento que vem sendo dado para a crise de energia, por exemplo?
Arbex O problema aí é mais complexo porque no fundo esta crise da energia é um desdobramento específico de uma crise muito maior que é a crise de governo. O certo seria a imprensa perguntar o que é que está causando a crise de governo. E a resposta aí é: a crise de governo é causada pela falência de um modelo, que é o modelo neoliberal e a própria crise de energia é uma decorrência da falência do modelo neoliberal. Isto porque se você pega seu dinheiro para pagar juros da dívida externa, para pagar o FMI, para pagar o Banco Mundial e se teu dinheiro serve para seguir as receitas destas instituições é óbvio que a crise de energia foi uma decorrência da aplicação destas receitas no Brasil. Então não adianta a imprensa fazer o que ela faz: reduzir a discussão a saber se foi tal ministro que foi incompetente ou tal presidente etc, porque no fundo a discussão é: a maneira pela qual o governo organizou a economia do país nos últimos dez anos está totalmente equivocada. Essa era a única cobertura decente, mostrar como o neoliberalismo produziu a crise do apagão e é isto que não é feito.
Folha Como o senhor vê estas manifestações da população contra o apagão? A população está mais crítica ou está apenas se manifestando porque a situação é desconfortável para ela?
Arbex É excelente, mas não significa que a população saiba realmente o que está acontecendo. Ela está é muito brava. É um processo de descontentamento da classe média que é perigoso. Este descontentamento por enquanto não foi para a direita, porque até agora não surgiu nenhum movimento de direita capaz de capitalizar este discurso é por isso que a esquerda mais do que nunca tinha que se organizar e ir para a rua. O PT tinha que ir para a rua. O PT está fazendo o jogo parlamentar, ridículo.
Folha E os escândalos de corrupção?
Arbex É um resultado, na minha opinião, da decomposição do governo Fernando Henrique. Ele não tem mais o que oferecer para a classe média, está enfrentando a recomposição dos movimentos populares, o choque de interesses entre as oligarquias que controlam o Congresso Nacional a oligarquia do Maranhão, da família Sarney; a da Bahia, do ACM; a do Ceará, com o Tarso Jereissati cada uma com seus interesses e não há como, dentro da crise que o governo está passando hoje, dar uma resposta conjunta para todos estes interesses. O resultado é a decomposição do governo que se manifesta através de denúncias de corrupção.
Folha A situação no Congresso Nacional hoje (renúncia dos senadores ACM e José Roberto Arruda) é então um reflexo da decomposição do governo FHC?
Arbex O governo Fernando Henrique tem uma contradição intrínseca que é a seguinte: é um governo do PSDB em aliança com as oligarquias. Só que o programa do PSDB é o programa da privatização das estatais. Ora, as oligarquias vivem das estatais, ou viviam, então na verdade esta privatização provocou um desordenamento das oligarquias que agora têm que se agrupar em novos arranjos se quiserem sobreviver e ainda por cima tomando porrada do MST. Isto é um Deus nos acuda para as oligarquias. Com quem vão se agrupar? Quem vai defender as estatais?
FolhaComo o senhor avalia o governo FHC hoje?
Arbex Os ratos estão abandonando o barco. O governo Fernando Henrique hoje está isolado, não tem resposta, é fundamentalmente diferente de 64 quando a ditadura tinha algo a oferecer para a classe média, tinha o milagre econômico e então aquelas senhoras católicas iam se manifestar por Deus, pela liberdade. Hoje em dia as católicas estão contra o governo. Estão fazendo passeata em Ipanema contra o apagão.
Folha E a mídia neste contexto? Qual está sendo seu papel?
Arbex A mídia faz o jogo das oligarquias. O ACM planta uma notícia na (revista) Veja, outro planta uma notícia na IstoÉ, aí vira uma briga da Veja contra a IstoÉ. Enfim, a mídia faz o jogo das oligarquias.
Folha Não dá para dizer que a grande imprensa está fazendo uma cobertura jornalística, ajudando a mostrar a corrupção?
Arbex O que acontece é que a mídia é contraditória. Ela não pode mentir o tempo todo senão perde a credibilidade, então de vez em quando fala a verdade para que continuem acreditando nas suas mentiras. O que a mídia faz? No momento em que está desabando o governo e começam a aparecer podres, se ela simplesmente ocultar vai perder a credibilidade. Existe aí um espaço importante de contradição e aí é que eu acho que o jornalista sério pode atuar, investigar, levantar os podres e ir fundo mostrando aquilo que nem a própria mídia queria mostrar.
Folha Não podemos ter então nas denúncias de corrupção um termômetro de mudanças no Brasil?
Arbex Eu acho que as coisas estão mudando, mas num sentido muito mais profundo do que escândalo de corrupção. Elas estão mudando porque existe disposição da parcela mais pobre do Brasil de se organizar e de criar um movimento nacional de mudança. O governo Fernando Henrique já sentiu isto, tanto que em maio do ano passado criou a Abin (Associação Brasileira de Inteligência) que é a recriação do Serviço Nacional de Informação (SNI) da ditadura militar e uma delegacia especializada em reprimir movimentos populares dentro da Polícia Federal, que é o antigo Dops. Eles perceberam que está havendo um processo de articulação que é impressionante porque acontece entre os índios; nas favelas com o movimento Hip Hop em São Paulo, no Rio, em Salvador, no Recife; entre os sem-terra com o MST; nas associações de bairros; com movimentos de categorias. Já existem hoje pelo menos 25 mil rádios comunitárias no Brasil, eles não vão conseguir mais brecar este movimento.
Folha Estes movimentos estão se alastrando pelo país todo...
Arbex Eu te digo o seguinte: nos últimos 12 meses fiz 90 viagens áreas para todos os cantos do Brasil norte, sul, leste, oeste e em todos os cantos que eu vou eu estou vendo esta rearticulação da sociedade brasileira e sempre nos setores mais pobres.
Folha Só que na grande imprensa não é noticiada a dimensão real destes movimentos. Que exemplo o senhor daria de um fato importante desta natureza que não foi noticiado?
Arbex Eu dou um exemplo escandaloso que aconteceu na avenida Paulista no dia 20 de abril. Eu estava na manifestação contra a Alca (Área de Livre Comércio das Américas). A polícia reprimiu com uma violência bárbara, sanguinária, aquele movimento. Foram presas 69 pessoas, 40 dos quais menores de idade. Foram feridas mais de 100, algumas com gravidade. Um rapaz de 15 anos chamado Rodrigo foi ferido com bala de verdade, uma garota foi ferida com projétil de borracha, muitos foram hospitalizados em estado grave. Tudo isso foi documentado, mas não saiu uma linha na grande imprensa, quem deu a notícia disto foi a Caros Amigos.
Folha E a cobertura dada ao Fórum Social Mundial? Como o senhor avalia?
Arbex Essa pergunta é interessante porque permite revelar o método que a imprensa utiliza quando ela não quer noticiar uma coisa, mas ela é obrigada a noticiar. Eles não conseguiram ignorar o Fórum porque atraiu 16 mil pessoas entre intelectuais, políticos, economistas do mundo inteiro, então o que fizeram: simplesmente reduziram toda a discussão do Fórum à figura do José Bové (líder camponês na França). Embora a contribuição dele tenha sido importante, o Fórum foi muito mais. Este é o método que a imprensa usa quando é obrigada a dar uma notícia que ela não tem interesse em dar.
Folha E o trabalho fora da grande imprensa?
Arbex Eu saí da grande imprensa numa situação dramática. Tinha chegado no auge da minha carreira aos 33 anos e tive que começar do zero. Então fui fazer doutorado em História na USP (Universidade de São Paulo), comecei a escrever livros (hoje são mais de 30). Comecei a buscar formas de sobrevivência que uniam a minha convicção política com a minha produção jornalística e acadêmica. Daí pintou a Caros Amigos como uma opção de jornalismo na qual eu não ganho dinheiro, assim como todos os outros colaboradores. O nosso maior interesse ali é fazer aquilo que a gente chama de verdadeiro jornalismo.


