O general e seus muitos amigos brasileiros
Arquivo FolhaConfiançaJosé Eduardo:
investimento
para
empregar
mão-de-obra
dos
brasiguaiosEm abril de 1996, quando Assunção fervilhava com rumores de que o general Lino Oviedo se aquartelara para dar um golpe contra o presidente Juan Carlos Wasmosy, o jovem brasileiro Carlos Henrique Deckmann, de 21 anos, não duvidou: vestiu um uniforme militar e correu até a casa de seu comandante e tio, que acabou sendo afastado do comando do Exército e passado para a reserva.
Dias depois, Carlos Henrique participou do lançamento da campanha de Oviedo às eleições presidenciais de maio e, dois anos atrás, ele já cantava vitória: Nasci em Curitiba, sou filho de pai brasileiro e minha mãe é prima-irmã do próximo presidente do Paraguai, dizia o jovem, que há apenas sete anos vivia em Assunção, onde frequentou o Colégio Militar. Mas Carlos Henrique não é o único parente brasileiro com quem Oviedo pode contar.
Nos anos 30, dois brasileiros, com a mesma profissão e sobrenomes quase idênticos, viajaram para o Paraguai. Pedro de Oliveira, do Mato Grosso, e Feliciano de Oliveira, do Rio Grande do Sul, eram ambos médicos, voluntários da Cruz Vermelha, na Guerra do Chaco. Por coincidência, casaram com Francisca e Isabel, irmãs de Eva, mãe de Lino. Pedro mudou-se para o Paraná e Feliciano ficou em Assunção, mas seus filhos nunca perderam contato, nem nos momentos mais difíceis.
Em 1989, quando o general Andrés Rodriguez liderou o golpe que encerrou três décadas e meia de regime militar de Alfredo Stroessner, Lino Oviedo ocupou seu lugar na história como o homem que teria capturado sozinho o velho ditador. Quando Rodriguez tomou posse, Lino me ligou, dizendo que o Paraguai precisava de investimentos para sustentar a nova democracia, conta Álcio de Oliveira, um dos filhos de Pedro. Ele conversou com o senador José Eduardo de Andrade Vieira (PTB-PR) - ex-dono do banco Bamerindus e ex-ministro dos governos Itamar Franco e Fernando Henrique - que abriu a Marangatu, maior indústria de esmagamento de soja na região, a 18 quilômetros de Ciudad del Este, a caminho de Assunção.
Foi o maior investimento da época, uma indústria que empregava cerca de 350 pessoas, beneficiando especialmente os brasiguaios, que cultivam soja na região e podiam vender seu produto diretamente ao fabricante de óleo sem passar por intermediários, conta Álcio, que aos 50 anos vive na ponte aérea entre Brasília e Mato Grosso, onde tem fazendas de gado. Mas antes de colocar US$ 35 milhões no Paraguai, Vieira e seus sócios quiseram saber com quem estavam lidando.
Todos sabiam que quem investisse no Paraguai tinha que pagar, para alguém, uma participação de 30%, conta Álcio, que foi incumbido de sondar seu primo sobre os costumes do novo governo. A resposta foi categórica: Me diz quem é o primeiro homem a pedir uma comissão, disse Lino, e será o primeiro a ter a mão cortada para servir de exemplo, lembra o fazendeiro. Segundo ele, José Eduardo jamais teve que pagar um único tostão de propina.
A empresa foi vendida há poucos anos, mas este mês, quando Oviedo voltou a ocupar as primeiras páginas dos jornais paraguaios e brasileiros, José Eduardo, preocupado, telefonou para o senador Roberto Requião (PMDB-PR), outro amigo de Oviedo. O general, aliás, tem laços de amizade não só com membros do Congresso como também com os militares brasileiros. Entre os amigos brasileiros, a família Oviedo lista três generais: o ex-presidente João Figueiredo e os atuais ministros do Exército, Zenildo Gonzaga de Lucena, e do Estado Maior das Forças Armadas, Benedito Leonel.
Os parentes brasileiros de Oviedo - e alguns políticos também - contestam a versão oficial do governo paraguaio sobre a tentativa de golpe, que ele teria dado em abril de 1996. Se Oviedo quisesse ter derrubado o presidente Juan Carlos Wasmosy, teria levado ele preso sem ajuda de ninguém, porque eram amigos e tinha acesso fácil a ele, diz Roque de Oliveira, irmão de Álcio e dono de postos de gasolina em Brasília. Afinal, ele prendeu Stroessner sozinho, com duas granadas na mão, argumenta.
Essa versão - a de que Oviedo jamais tentou dar um golpe mas, ao contrário, se negou a fechar o Congresso a pedido de Wasmosy - foi divulgada em 1996, pela consultora Propeg, do Brasil, contratada por Oviedo. Em Assunção, outro primo brasileiro ajudou a escrever um livro sobre o assunto.
Euclides de Oliveira - filho de Feliciano, o médico brasileiro que ficou no Paraguai, depois de se casar com a tia de Álcio, Roque e Lino - tem 40 anos, é dono de uma empresa de importação de produtos do Brasil e pertence à organização política Juventud Siglo 21, pró-Oviedo. Ele colaborou com a publicação de um livro, editado no final do ano passado, sobre o Wasmosazo - o golpe branco que os oviedistas acusam Wasmosy de querer dar. (M.Y)





