O disco voador
O encontro de ufologia científica em Curitiba no Templo Rosa Cruz, o que lhe aumenta a dimensão mítica, fez lembrar as incursões da imprensa paranaense no fascinante assunto. O poeta (ganhador do Prêmio Fábio Prado com o livro ''Os instrumentos do tempo'') Fernando Pessoa Ferreira junto com o fotógrafo Romário Amódio fizeram uma dessas proezas que chegaram a ganhar o noticiário além fronteiras: improvisaram um disco voador e o lançaram na Rua Comendador Araujo nas proximidades do jornal ''O Estado do Paraná'' em que trabalhavam. A operação singela: arremessaram ao ar um botão prateado e o fotografaram aparecendo ao fundo o Edifício Kwasinski e deram aquilo como um disco voador.
A matéria, bem no estilo debochado e irreverente do repórter-poeta, começava mais ou menos assim: ''Estávamos eu e o Romário caçando lagostas nos bueiros da Rua 24 de Maio quando tivemos a atenção para uma galinha (isso é para dar cor local à história) que se movimentava e em seguida para o movimento circular de um objeto que se movimentava no espaço e lembrava em tudo um disco-voador''. Ora o texto já era uma gozação cheia de coisas inverossímeis a começar das lagostas em bueiros. Não há ser vivo, fora dos ratos, que tolere bueiros de Curitiba, ainda mais quando há estiagem.
Dá para pasmar o fato de que as agências internacionais acabaram indo atrás do OVNI e até publicando a inenarrável foto, descurando-se do sarro que já vinha na abertura da reportagem.
COMA E EMAGREÇA Outra estória do Fernando Pessoa (apelidado de Belém-Brasília porque era ''feio e mal acabado'') e que lhe rendeu a demissão do jornal foi outra evidência do seu desapego aos formalismos jornalísticos. Havia secção assinada por Josephine Loyman ''Coma e Emagreça'', copy de agência mundial, lavrada em castelhano e traduzida sempre pela Rosi Cardoso. Como a repórter social tinha viajado ao Uruguai passaram a tarefa ao Fernando e ele deitou e rolou, fazendo consultas esdrúxulas e com respostas mais malucas. Lembro que numa delas uma brevilínia se queixava de ter menos de um metro e mais de 90 quilos ao que respondeu: ''desista que isso é elefantíase''. Numa outra ele aconselhava uma ginástica para emagrecer que transformava a pessoa num polvo, exercício impossível. ''Se alguém espantar-se por vê-la nessa situação, não se preocupe que é dos ignorantes o reino dos céus.'' A esposa de um dos donos do jornal era uma das leitoras assíduas da coluna e o Fernando foi demitido.
CABECEIRA Fernando aprontou várias em Curitiba, mas a pior deixou a turma da praça indignada. Escreveu um texto para uma publicação da Editora Civilização Brasileira na série ''Cadernos de cabeceira do homem'' intitulada ''Curitiba, a fria''. De cara penetrava pelos terrenos da linguistica sugerindo que o topônino Curitiba tinha o sufixo ''ritiba'' significando ''do mundo''. Num dos sub-títulos sobre a cidade, hoje exageradamente badalada, incluiu ''onde Jânio comia moscas'' pelo fato de o ex presidente ter estudado por aqui.





